
Entrevista
Paulo Pires do Vale: “O medo é o sentimento destruidor da democracia”
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Catarina Alves, Fotografia
Filósofo, professor universitário e curador, Paulo Pires do Vale foi nomeado Comissário do Plano Nacional das Artes com a missão de mobilizar o poder educativo das culturas, das artes e dos patrimónios. Aproximar a escola da comunidade, promovendo a transformação social, é um dos objetivos desta iniciativa que organiza até março a Bienal Cultura Educação, sob o tema "E em Vez do Medo?"
Para o responsável, a arte tem “um potencial de esperança contra o medo” e ajuda a “fugir da armadilha do tempo perdido” imposta pelos ecrãs. Defendendo mais democracia cultural, acredita que a intolerância também se enfrenta com a liberdade que as artes oferecem.
Durante a apresentação do Plano Nacional das Artes, em 2019, disse que seria “uma revolução lenta” e falou da necessidade de “indisciplinar a escola” e “cortar fronteiras”. Mais de seis anos depois, que papel assumem as artes na escola e no nosso mundo?
Acredito que isso foi determinante no lançamento do Plano e é isso que está a acontecer. Com a ideia de explosão lenta da semente, uma citação do [artista] Bruno Munari, tínhamos a clara consciência de que aquilo que propúnhamos não era só fazer uns eventos no país, criar uns acontecimentos, mas era uma mudança estrutural. E as mudanças estruturais levam mais tempo do que, simplesmente, um acontecimento fugaz. Por isso, além de deitar muros abaixo, é preciso que a escola se repense a si mesma, para poder trabalhar melhor em comunidade, com todas as instituições que a podem ajudar a cumprir a sua missão. Por exemplo, como é que o museu pode ser um lugar educativo, como é que o teatro pode fazer parte integrante da vida da própria escola e qual o papel dos artistas residentes numa escola?
Hoje sabemos que deixamos uma pegada ecológica, qualquer um de nós, mas ainda não tomámos consciência, todos enquanto cidadãos, que também deixamos uma pegada cultural. Ou seja, há um ambiente cultural que devemos cuidar e não o estamos a fazer. Nesse sentido, é importante um empresário ganhar consciência que tem um papel na cultura dos seus funcionários e da sua comunidade. E as câmaras municipais e juntas de freguesia tomarem cada vez mais consciência do papel que podem ter na vida comunitária e cultural, na sua diversidade.
Como se consegue essa mudança?
Não podemos pensar só na cultura elitista de um grupo ou de uma classe que quer democratizar essa cultura para todos, não! A cultura de cada um dos cidadãos tem um valor e deve ser valorizada. Não precisamos levar cultura ao país, porque já existe cultura no país. Temos é de encontrar os meios para que as expressões culturais que aí não existem, possam existir. E isso é outra coisa. Mas o primeiro passo é valorizar o que já há em todo o território. Com isso, estamos a valorizar as pessoas e, ao fazê-lo, valorizamos a sua participação na vida da cidade, na vida da comunidade, na vida da polis.
Uma das razões para o afastamento dos cidadãos da vida política é não os valorizarmos suficientemente. Durante muito tempo, a democratização da cultura olhou de cima, de uma elite que sabia o que é que os outros tinham de consumir, era sempre muito descendente. Claramente, precisamos de políticas culturais diferentes, mais democracia cultural em que se valoriza cada um.
Tantas vezes pensamos que para fazer a mudança temos de intervir de forma global, total. Não, vamos olhar para o quilómetro quadrado. Como é que eu posso fazer a diferença no meu quilómetro quadrado? Como é que uma escola ou uma instituição de ensino superior, um museu, pode fazer a diferença no seu quilómetro quadrado? Essa dimensão é mais fácil de compreender quando podemos juntar os vizinhos, os que estão mais próximos, as instituições que tantas vezes estão umas ao lado das outras, mas não trabalham juntas, e pô-las a colaborar.
Se um dos objetivos passa por fazer das instituições culturais polos educativos e das escolas polos culturais, como construir mais pontes entre a cultura e a educação?
Esse mantra do Plano é determinante. Uma escola é um centro cultural, tem de ser um centro cultural. Um centro cultural onde haja muitas atividades, onde se possa dar acesso aos alunos a muitas experiências e a muitas linguagens que tantas vezes não damos acesso na escola. A escola fica muito nesta linguagem lógica ou verbal e depois perde a possibilidade de dar acesso ou de ajudar a desenvolver outras possibilidades nos alunos e nos professores.
Portanto, se a escola é um centro cultural, devemos dizer que aquilo que são as instituições culturais, os teatros, os museus, os centros culturais, são também um território educativo. Ali também se aprende. De outra maneira, se calhar não as mesmas coisas, mas também até as mesmas. E, nesse sentido, se a nossa primeira linha estratégica era trabalhar toda a comunidade, a segunda passa, precisamente, por indisciplinar a escola.
E o que significa indisciplinar a escola?
Não se trata de indisciplinar os alunos, mas pensar de que forma é que as artes, os patrimónios, as culturas, sempre no plural, podem ser motivo de trabalho transdisciplinar na escola. Como é que se podem aprender muitas coisas diferentes através da fotografia, ou de um filme, ou da música? E posso trabalhar a matemática, mas também a história através do património ou a filosofia através do cinema. Portanto, a ideia de trabalho transdisciplinar ou indisciplinar, para não ficar preso a uma disciplina, pareceu-nos fundamental, porque a escola está espartilhada em disciplinas.
Ainda se continua a pensar que a forma de entrar na escola é criar mais uma disciplina. E quem é que vai definir o que é cultura para essa disciplina? Mais uma vez, vai ser aquela coisa da elite a definir para o resto? Portanto, repensar a escola implica criar também um plano cultural para essa escola. Uma das medidas do Plano Nacional das Artes que está a acontecer este ano é a Bienal Cultura Educação, que tem como grande objetivo, precisamente, colocar as escolas ao lado das instituições culturais, dos museus, dos teatros, dos centros culturais, como produtores culturais. E, portanto, quisemos fazer uma bienal pensada, precisamente, para a infância e para a juventude, com propostas em todo o país. Devo dizer que isto é único no mundo. Não há outra bienal que aconteça em todo um território.
A bienal tem como tema transversal a pergunta “E em Vez do Medo?”. Nas artes e na vida, é do choque entre o medo e a coragem que nascem os melhores feitos?
O tema procura perceber que o medo pode ser castrador e bloqueador. Também temos consciência que há medos que nos ajudam a enfrentar melhor a vida, portanto, a ter consciência do mundo. Foi escolhido pela Marta Bernardes, a curadora deste ano da bienal, e assenta numa pergunta cuja consequência é pensar que a ação, o agir, é já uma forma de desbloquear os medos. Ou seja, já estamos a reagir.
O medo é tantas vezes difuso, ou sentido de uma forma difusa, e também pouco examinado. É importante sermos capazes de enfrentar os medos e perceber como é que outros podem manipular o nosso medo, porque o medo é o sentimento mais destruidor da democracia. É um sentimento tóxico, que nos leva a desconfiar do outro e, tantas vezes a apontar-lhe a causa de todos os males, seja ele o emigrante, o judeu... Ao longo da história percebemos como fomos capazes de encontrar bodes expiatórios para os nossos medos e encontrar culpados quando, na verdade, não o são. E isso é tremendo, porque há alturas em que vemos isto avolumar-se. Por um lado, o medo a ser manipulado por notícias falsas, por imagens que já não são verdadeiras e deixamos-nos ir sem o tal exame do medo. Também por isso, digo que é absolutamente fundamental enfrentarmos o medo também com o papel específico dos artistas e das artes. O que é que isto significa? Significa que há na arte um potencial de esperança contra o medo.
Por outro lado, as artes foram sempre uma forma de nos colocarmos no lugar do outro e de o conhecermos melhor. Porque, às vezes, aquilo que parece ser o mais íntimo e mais único em cada um é também o mais comum e o mais próximo.
Como é que essa instrumentalização do medo, muitas vezes transformada em ódio, acaba por ser um dos principais riscos para a democracia?
A democracia assenta na confiança do coletivo, na confiança da inteligência do coletivo. A democracia, que não é apenas o ir votar de vez em quando, ir às urnas, é muito mais do que isso, implica uma participação na vida da cidade, na vida da comunidade, que passa por uma capacidade de partilharmos o poder. Isso significa que não é alguém que tem o poder absoluto, ou melhor, alguém que até pode ter o seu poder e que diz que o vai partilhar. A pergunta que devemos fazer é onde é que aprendemos a ser democratas? É a escola o lugar da democracia? Em casa, as famílias são lugares da democracia? As instituições culturais são lugares de democracia, ou há sempre alguém que manda e outros que obedecem? Portanto, essa partilha do poder é verdadeiramente o centro da democracia.
Por exemplo, eu posso dar uma aula belíssima sobre a democracia, mas não quero saber nada do que os alunos têm para dizer e, de repente, a aula belíssima desfaz-se, porque foi pouco democrática. Tantas vezes pensamos que a forma e o conteúdo são duas coisas distintas e não são. A forma de fazer, vamos chamar de estilo, o estilo de liderança, por exemplo, ou de executar o poder, esse estilo é mais ou menos democrático. A democracia depende de um estilo.
Também já o ouvi dizer que “o problema da saúde da democracia é deixarmos de confiar na participação de todos na vida comum”. Sente que os ideais de comunidade e de cidadania têm vindo a perder-se e estão, também eles, em risco?
Tenho medo de que voltem a levantar muros de protecionismo, de nacionalismo, numa tentativa vã e falsa de uma qualquer identidade nacional pura, quando não existe. Aquilo que caracteriza as comunidades e as culturas é, precisamente, essa mistura, o serem influenciadas por muitos. Posso dar um exemplo do património nacional: se há uma característica que qualquer turista chame portuguesa são os azulejos. E nós próprios também ficamos orgulhosos porque temos qualquer coisa de muito nacional. Ora, o azulejo é uma influência árabe vinda por Sevilha para Portugal e, portanto, uma influência islâmica. Aquilo que é característica nossa é também marcada por essa influência.
Da mesma maneira que nos nomes e nas palavras temos os romanos, os gregos e os fenícios. Nós somos uma mistura disso tudo! E é nessa experiência de mistura que devemos valorizar a comunidade. Quando queremos comunidades que levantam muros, não deixam os outros entrarem, queremos apenas uma certa homogeneidade falsa, porque é fictícia. E aí, sim, se levanta o problema, quer da democracia, quer das comunidades. É contra isso que devemos, de facto, trabalhar. E pensar como podemos acolher melhor e colaborar uns com os outros e não cada um na sua torre.
As nossas cidades e autarquias pensam a cultura de modo estratégico e procuram colocá-la no centro da equação?
Há muita diversidade em todo o território, mas também há uma consciência que devemos ter: o investimento na cultura por parte das autarquias é fundamental para o tecido cultural português. E isso tem de ser feito também com uma intencionalidade maior, uma consciência maior de onde estamos, de facto, a investir mais, e de onde temos de investir no futuro. Se calhar, estamos a pôr os ovos todos no mesmo cesto quando devemos dividi-los. Há uma tomada de consciência que é necessária e que implica um mapeamento mais preciso das organizações culturais naquele território, como podem colaborar melhor com as instituições educativas, como uma câmara municipal pode apoiar a presença de artistas residentes numa escola e como isso tem tanto impacto na comunidade. Isso é fundamental.
Mas aquilo que sinto no território é que há uma consciência, um cuidado que as câmaras têm e que pode ser sempre trabalhado, melhorado e desenvolvido. E nesse sentido, a proposta que fazemos passa por haver planos estratégicos municipais. Isso implica um conhecimento melhor do território, da cidade, daquele município, e de que maneira se podem coordenar melhor as estruturas, quer culturais, quer educativas. Esse é o grande objetivo: valorizar o que já existe e melhorá-lo para o futuro.
Como costuma lembrar, a educação e a cultura podem ser a melhor forma de promover a transformação social e “indestinar” a vida dos jovens, ou seja, de lhes mudar o destino. O código postal, as origens e a condição económica ainda determinam o sucesso e o futuro de muitas pessoas?
Nós nascemos e crescemos sempre com circunstâncias que nos definem, ou que ajudam a definir. A possibilidade de encontrar um filme, um livro, uma obra de arte que abre possibilidades em nós que nós não sabíamos que tínhamos, é determinante para essa mudança. Isto significa que temos de encontrar modos de aproximação das obras de arte aos cidadãos, em particular em idade escolar, mas também em todas as idades. Há uma juventude em todas as idades, que pode ser essa de nos sentirmos “indestinados”.
Significa que aquilo que nos parecia ser o nosso destino, por termos nascido numa determinada situação, ou condicionados pelo que os pais ou outros desejam de nós, pode não ser exatamente assim. Ou seja, de repente percebo que há mais hipóteses na vida, que eu nem sabia que a vida podia ser isso. Isto, até ter encontrado aquela obra. E isso significa que não estamos fechados, não estamos já feitos, não estamos pré-feitos. O filósofo Paul Ricoeur diz isso, lembrando que um grande livro é aquele que abre ao leitor possibilidades de si que no início do livro ele não sabia que tinha. Isso, acredito, são também as consequências de uma grande obra.
E, de repente, percebemos que temos possibilidades que não sabíamos que tínhamos. Possibilidades expressivas, de eu me poder expressar de outra maneira, de eu poder sentir coisas que eu nem sabia que podia sentir e de eu poder ser o que tantas vezes não sabia que podia ser.
Curiosamente, está a falar na primeira pessoa. O seu destino também mudou muitas vezes, por exemplo, ao trocar o curso de teologia pelo ensino e pelas artes. Como é que alguém que durante tanto tempo quis ser padre acaba imerso no mundo da estética e até a escrever um livro [“Do Erótico - Frente a Torso”] que aborda o erotismo e o desejo?
É a prova da possibilidade de reinventar a vida. De perceber a sua plasticidade, no sentido de que ela não está feita, o destino não está traçado, e de compreender como podemos aproveitar o que nos vai acontecendo à medida que o caminho vai sendo feito. Ou seja, tantas vezes traçamos um futuro e depois esses planos podem ganhar cor e corpo com as experiências que vamos fazendo com outros, nos encontros com as obras, com o pensamento, com a filosofia, com a teologia, com a história da arte, com os artistas, com as pessoas que vamos encontrando e que nos vão também abrindo o horizonte.
Esse é o processo. A vida, em vez de ser um contínuo fechamento do horizonte, pode ser o dilatar do horizonte. E nesse horizonte dilatado, acredito que as artes abrem precisamente essa experiência e nos dão mais liberdade para escolher. Isso, sim, é uma experiência pessoal, mas acredito que é a experiência que todos podemos ter e partilhar. De repente, escutar qualquer coisa que nos toca profundamente, nos afina, como ainda não tínhamos percebido que podíamos ser afinados.
Por outro lado, isso implica estar disponível. Para o outro, para a diferença, para nós próprios como diferentes. Porque o outro não está só fora de nós. Nós próprios somos outros. E é essa consciência que a filosofia me foi dando e que depois a vida me foi demonstrando. Depois, há todas as influências que temos e que nem sabemos. Da avó, do pai, da mãe, do livro que lemos, dos amigos com quem conversámos. Essas influências estão em nós e, às vezes, esses outros não abrem o horizonte, mas podem fechá-lo. Também por isso, precisamos de experiências como a da educação e da cultura, na sua multiplicidade, para que estes horizontes possam ser abertos.
Nos últimos tempos, tem surgido uma outra cultura, a do scroll, do like e do imediato. Esta é inimiga do tempo das artes?
Sim, é. Mas houve sempre um entretenimento fácil, que podemos encontrar na história de formas muito diferentes. O tempo que é exigido nesta construção de si diante de uma obra, o tempo da atenção, que é esse de perceber o que eu estou a ver, mas não apenas o que estou a ver fora, mas o que vejo em mim, a partir disso que dou atenção. E depois há o tempo de não ficar apenas aí, mas dar um passo em frente e saltar daí para me obrigar a mudar o mundo, a mudar alguma coisa no meu quilómetro quadrado, que já é um tempo mais longo.
O tempo da atenção implica eu deixar que as coisas se revelem à minha frente, olhar até que alguma coisa brote e que não seja apenas eu a lá colocar isso, mas que venha de fora. Porque muitas vezes aquilo que acontece na relação com as obras é elas serem apenas um espelho do que eu já sou. E elas têm de ser mais do que isso, têm de ser uma abertura para outra coisa, para aquilo que eu ainda não sou, para outras possibilidades. Isso implica tempo, implica uma hospitalidade, disponibilidade, essa ideia de uma espécie de atitude contemplativa. Depois, passar disso para o tal passo em frente que é ser mais ativista, para a atitude transformadora da própria realidade, implica ainda outro tempo. E isso não se compadece com a rapidez dos ecrãs, implica mesmo outro tempo.
Volto a repetir, não significa que ao longo da história não tenha sempre acontecido a gratificação rápida do jogo, qualquer que ele seja. Podemos é ficar presos aí, ou seja, é uma espécie de armadilha. Da mesma maneira que temos de fugir da armadilha do medo, e há uma astúcia da arte para isso, também temos de fugir da armadilha do tempo perdido.
Já dizia Sophia de Mello Breyner que “a cultura não existe para enfeitar a vida, a cultura existe para a transformar” …
Também costumamos lembrar esta frase porque, por um lado, a cultura serve para exercitarmos o direito ao prazer e, depois, para percebermos que as artes são formas de enfrentarmos a vida. As canções, as peças de teatro e as obras que foram sendo feitas ao longo da história são modos de enfrentar a incerteza, o desgosto, o amor, a paixão e o medo, ou seja, de nos relacionarmos com o mundo e com a vida.
Ao lidarmos com estas obras, estamos a lidar com este depósito da humanidade. E é com ele que nos construímos como humanos. Significa que descobrimos os nossos limites ou as nossas possibilidades de ultrapassar os limites. Descobrimos possibilidades que não sabíamos que tínhamos. Acredito, verdadeiramente, que as artes também têm esse papel de transformação, de cada um, mas também das comunidades, porque são uma possibilidade da própria comunidade se identificar, se conhecer, se reconhecer e se refazer. Porque nunca estamos já terminados. Esse é o medo que tenho às vezes em relação a algumas propostas identitárias, ou seja, a ficções da identidade de um país ou de um povo, que, na realidade, não nos ajudam a libertar e a ser o que podemos vir a ser.