Espírito de Aldeia

Ficção

Espírito de Aldeia

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Afonso Cruz, Escritor, Texto
Mariana, A Miserável, Ilustração 

Diz uma conhecida piada que para evitar os defeitos das cidades seria preciso levá-las para o campo. Não será assim, mas talvez o seu oposto: levar o campo à cidade. Falo do que se poderia cunhar de «espírito de aldeia». Manifesta-se na sua forma mais singela, num gesto simples, arcaico e poderoso — o cumprimento —, que talvez seja o seu mais digno emblema. Quando chego a uma cidade como Estremoz, que provavelmente se situa no limiar entre a dimensão desumana da urbe e o tecido humano da aldeia, e um desconhecido me diz «boa tarde», reencontro não apenas uma cortesia, mas uma ética (comum nas aldeias). Este gesto mínimo é, afinal, uma forma de reconhecimento, um modo de convocar o outro à existência, não como função, nem como obstáculo, mas como presença. É um anti-algoritmo. Uma palavra dita no espaço partilhado, que confirma o mundo como lugar comum e nos confirma como pertencentes a uma comunidade e não a uma linha de montagem industrial. 

Edgar Morin, em Só um instante, no capítulo intitulado “Recolocar o humano no centro da cidade”, escreveu o seguinte: «A cidade passou por inúmeras mudanças ao longo dos últimos cinco milênios e, sem dúvida, novas mutações vão acontecer. As inovações urgentes, porém, consistem em aumentar e aperfeiçoar as instalações físicas e menos em multiplicar invenções eletrônicas automáticas para elevar a automatização dos comportamentos e o anonimato. Em contrapartida, seria frutífero recolocar os interesses humanos no centro do pensamento sobre a cidade, com atenção renovada aos processos cósmicos e ecológicos que envolvem todos os seres. Precisamos devolver à cidade todas as suas funções maternas e protetoras da vida (assistência e socorro), as atividades autônomas e as associações simbióticas que, desde muito tempo, têm sido negligenciadas, até mesmo suprimidas. A cidade deve ser uma instituição de amor. A melhor economia para as cidades consiste em cultivar solidariedades.»

Nas grandes cidades habituámo-nos ao silêncio forçado nos elevadores ou à agressividade do trânsito perpetuada por indivíduos enfiados nas suas armaduras, os automóveis. As redes sociais, que prometiam ligação, conexão, expõem-nos hoje a uma violência latente: discursos de ódio, indignação performativa (algumas absolutamente legítimas, outras ofensivas) e tribalismos. Mas fora desse mundo — ou melhor, dentro do mundo real — as pessoas continuam, muitas vezes, a sorrir, a abrir-nos portas, a dizer «obrigado». Essa diferença entre a vida vivida e a vida nos ecrãs deveria dar-nos alguma esperança, mesmo quando vemos a violência xenófoba aumentar. O mundo real, quando não mediado por dispositivos de polarização, é muitas vezes mais alegre e mais justo do que os discursos sobre ele. 

A cidade do futuro, por isso, deverá alterar as prioridades, ser uma cidade habitada por aldeões — não no sentido demográfico, mas no sentido ético e relacional. Aldeões que reconhecem no outro uma parte do próprio mundo. Cada bairro, seria, deveria ser, uma pequena aldeia, cada praça, uma ágora onde o cumprimento é possível, onde o rosto pode surgir. Pois é o rosto, como escreveu Emmanuel Lévinas, que funda a ética. O rosto do outro interpela-me, obriga-me a agir eticamente. Não posso continuar a ser o mesmo depois de o ver — porque o rosto é vulnerabilidade, é um Tu que exige resposta, é a manifestação da infinitude na fragilidade da carne. 

Para Lévinas, esta relação com o rosto do outro precede qualquer sistema ético ou político. Não é uma escolha, é a condição originária da responsabilidade. E o primeiro gesto dessa responsabilidade talvez seja tão simples quanto dizer «boa tarde». Nesse instante, deixo de ser uma ilha, recuso o anonimato e a indiferença, reafirmo a existência dum mundo em comum. O cumprimento é o logos da cidade humana, é a palavra que afirma, no tempo e no espaço, a dignidade do outro.

Este «espírito de aldeia» não é nenhuma nostalgia rural, é um projecto ético e político. As aldeias, ainda que envelhecidas e despovoadas, contêm uma lição que as Espírito de Aldeia metrópoles esqueceram: a de que a transcendência não está, como seria de esperar, além, mas entre nós (parafraseando os evangelhos, o Reino está entre nós, e não num céu qualquer. Deus, a existir, teria a sua manifestação no mundo na reciprocidade do reconhecimento). A transcendência é o outro. E cada vez que ignoramos esse facto simples, esquecemos qualquer possibilidade de comunidade. O cumprimento é a liturgia laica dessa cidade por vir. 

Ora, uma urbe assim só poderá nascer quando os cidadãos deixarem de ser meros consumidores — de ideias e produtos —, quando o Estado abandonar o seu papel de defensor de monopólios e assuma a função de regulação do bem comum, a única que o legitima. Voltando ao já citado livro de Edgar Morin, no capítulo “Humanizar as cidades”, lemos o seguinte: “A humanização das cidades passa por uma nova governança urbana. Atualmente, os planos de urbanização estão condicionados pelas relações de força e os interesses da especulação imobiliária, que precisa para atingir seus objetivos de apenas algumas autorizações públicas, obtidas, com frequência, pagando comissões, de acordo com o grau de corrupção das administrações. A complexidade dos problemas urbanos engloba todas as dimensões da vida humana, pessoal, econômica, demográfica, social, etc.

Precisaria, portanto, promover-se uma nova governança urbana, inclusiva e participativa, com a presença de autoridades municipais e nacionais eleitas, setores profissionais qualificados para tanto (arquitetos, urbanistas, sociólogos, psicólogos), uma amostragem de diversidade etária, de gênero e profissão das pessoas, inclusive desempregados. Esses novos conselhos de governança urbana pensariam as suas cidades e elaborariam uma “boa” governança.” 

Esta forma de governar pode ser possível, mas somente depois de boas práticas diárias, só assim podem nascer estruturas mais complexas e benignas, a partir de gestos comuns, que encontramos quotidianamente e cultivamos. Não há nada de difícil nisto: não é preciso o investimento de milhões, de tecnologias de ponta, é apenas uma pequena mudança no comportamento. Cultivar o gesto mínimo, ritual (no seu melhor sentido), da saudação, das pequenas simpatias e cortesias. Dizer «bom dia» a quem não conhecemos, não para fingir proximidade, mas para afirmar que vivemos juntos — na mesma cidade, no mesmo tempo, no mesmo mundo. Se o rosto é a luz, o cumprimento é a palavra que o acende.

Publicado em 19 Janeiro, 2026 - 09:00
Urbanismo e Sociedade