
Opinião
Hoje, a perceção condiciona mais as decisões do que os próprios factos ?
Raquel Varela, Historiadora, ensaísta e professora universitária FCSH-UNL, Texto
André Carrilho, Ilustração
No Inverno de 2025 uma depressão trouxe chuva e vento forte a Portugal, como é comum, aqui e ali. Nas televisões surgia um alerta – mais um! – de tempestade, agora com registo de batismo: Martim, Alice, Wilma, nomes que ficarão para sempre associados a vendavais. As televisões, em formato constante de Breaking News, dão os alertas, evitando, por apenas alguns minutos, a sua marcha dormente rumo à derrocada, expressa na crise de audiências.E a Proteção Civil, não raras vezes na figura de um presidente de câmara licenciado em Direito, envergando, barrigudo, um colete fluorescente, informa a população do choque e pavor. Há que ter medo! Alerta vermelho, laranja, amarelo! A certificação internacional das cores de alerta protege as seguradoras, transferindo para cada um a responsabilidade de estar ou não exposto à intempérie, seja um operário por turnos, uma médica em serviço, um filho a ir levar medicamentos à mãe, sozinha, na aldeia. Todos foram avisados. Se saíram, a responsabilidade é sua.
Ao mesmo tempo vamos sendo temperados por esta bitola de relações em forma de sinais luminosos. É assim para avaliar o supermercado, o carregador de comida uberizado, a avaliação individual de desempenho docente, a prestação do hospital – tudo cabe num botão colorido.
O meu pai, engenheiro silvicultor, tinha ligado nesse dia, sem dramas, a toda a família: “Olhem, o vento vai soprar de um quadrante menos comum, de inverno, do lado terra, tirem os carros de debaixo das árvores.” As tempestades normalmente em Portugal são de sul, sudoeste, nordeste, sopram do lado do mar, e as raízes das árvores estão preparadas para ventos dominantes, de nordeste. Aquela tempestade, de sueste, ia derrubar árvores. E assim foi, muitos carros destruídos, essenciais, infelizmente, para a maioria das pessoas trabalharem e viverem. Os presidentes de câmara e as seguradoras disseram que nada podiam fazer, tinham alertado.
Recordo-me de nas aulas de Geografia, teria 13 ou 14 anos, já então com currículos descafeinados, a quem tinha sido retirado o gosto da geografia humana, mas ainda com uma forte presença da geografia física, nos ensinarem a ler a meteorologia como “os ponteiros do relógio e ao contrário deles”. As linhas de pressão, expressas em mapas em isóbaras, são apresentadas ainda em algumas televisões, caso da espanhola e galega. Por cá, sobram alertas. A maioria da população, mesmo com diploma universitário, não sabe ler um mapa, e quando vai à aplicação do telemóvel confunde probabilidade de chuva com quantidade de chuva (100% acham que é muita chuva).
Esta história poderia contá-la com as ondas do mar, com as idas à montanha, mas também com os conceitos políticos ou económicos. A agência tal “alerta para risco de défice”. Défice de quê? De quem? “A UE dá luz verde, houve redução da dívida pública.” Mas é pública ou privada? Alerta vermelho diz a entidade de certificação tal, “o custo do trabalho sobe”. Mas o trabalho custa ou produz riqueza?
Quem ganhou com a “redução” da dívida pública paga em mortes a caminho do hospital ou, pior, dentro do hospital, onde se reduziram os custos do trabalho, hospital certificado com qualidade máxima e satisfação dos utentes, em botãozinhos verdes.
Não vivemos tempos de erros de perceção, vivemos tempos de expropriação do saber, substituídos por alertas de medo e vigarices de avaliação de qualidade máxima e certificação total.
As perceções dependem da nossa educação, ou seja, do nosso conhecimento e da nossa consciência política, que se constrói coletivamente nos partidos igualitaristas, nas escolas, nas universidades, nos jornais, nos cafés, e sobretudo – sempre foi assim – nas organizações de resistência do mundo do trabalho e da cultura que questionaram as escolas, as universidades e o jornalismo a partir do café, da associação, de uma qualquer organização da sociedade civil.
Se me ensinam meteorologia, posso calcular riscos, agir sobre eles, dentro de uma amplitude de opções razoável. Se conheço a economia política, posso mover-me dentro de um possível leque de soluções e escolhas de vida. O erro de perceção é pensarmos que podemos deixar de saber, pensar e conhecer porque alguém nos vai oferecer o saber e a opção certa.