Comunidade: A vida em comum que traz futuro às cidades

Sociedade

Comunidade: A vida em comum que traz futuro às cidades

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
D.R., Fotografia 

Um prédio onde todos olham por todos, uma horta urbana que distribui felicidade e um clube a lutar pelo coletivismo mostram como o amanhã das cidades passa pela força da comunidade. Ao mesmo tempo, o digital impõe mudanças e levanta a questão: apesar de mais conectados, vamos estar mais sós do que nunca? Grupos de cidadãos, especialistas e novos projetos apontam caminhos para o futuro.

Os prémios de arquitetura chamam-lhe um exemplo para o mundo, “generoso” e “transgressor”, alguns sociólogos falam em utopia concretizada, mas para uma menina de cinco anos, como Ana Camprubí, o prédio onde vive é, simplesmente… “a casa mais fixe de todas!”. Gosta especialmente de uma sala polivalente, cheia de brinquedos, livros e um escorrega, onde nunca faltam crianças a brincar juntas. Ali ao lado e noutras divisões comuns, os adultos também partilham tarefas e espaços, como a lavandaria, uma cozinha para festas e jantares entre vizinhos ou dois quartos de hóspedes onde alojam gratuitamente amigos e familiares.

Assim se vive em La Borda, uma habitação cooperativa e de cohousing no centro de Barcelona onde o sentido comunitário assume múltiplas formas, enquanto desafia a especulação imobiliária e combate a solidão. “Construímos habitação para construir comunidades” é um dos lemas deste edifício e das 28 famílias que o habitam, cada uma no seu apartamento, mas com base numa gestão coletiva em que o bem comum prevalece face aos interesses individuais. Para muitos, o futuro das cidades passa por exemplos como este, que reinventam a forma de habitar e de viver em comunidade.  

Carles Camprubí, pai de Ana e um dos arquitetos responsáveis pelo projeto, recebe-nos no pátio central, em torno do qual se organizam (propositadamente) todas as áreas comuns. “A ideia é que os vizinhos se cruzem, encontrem e interajam, aproveitando aquilo que eu costumo chamar luxo comunitário. É verdade que não tenho uma casa enorme, mas posso partilhar vários espaços, como a cozinha onde juntei 80 pessoas no aniversário da minha filha”, conta o cofundador do ateliê de arquitetura Lacol. Já Ana, nem consegue imaginar as casas de outra forma: “O que para nós é algo fantástico, ela encara com naturalidade e sempre que vamos a um edifício mais convencional pergunta-nos onde estão as outras pessoas e porque é que ali não há uma cozinha grande para todos”, recorda o morador.

Os especialistas ajudam a explicar este sentido de pertença que até uma criança de cinco anos procura. Como lembra o sociólogo urbano Paulo Peixoto, “nas nossas cidades ainda persiste um sentimento de comunidade porque as pessoas continuam a ter necessidade de estar próximas e de encontrarem proteção naquilo que as liga, criando um sentido gregário, mas um gregário contemporâneo”.

O presidente da Associação Portuguesa de Sociologia acredita que as comunidades vão continuar a mudar, a evoluir, tornando-se mais fluídas e voluntárias, ou seja, baseadas em interesses comuns e não tanto em fatores tradicionais, como o território ou a família. “Recentemente, tive a oportunidade de interagir com uma comunidade de pessoas que construíram um espaço residencial no Alentejo em torno de valores ecológicos e de recusa de certos comportamentos predominantes nas sociedades contemporâneas. São essas afinidades que vão definir muito as comunidades futuras”, antecipa.

Também José Carlos Mota, professor da Universidade de Aveiro e dinamizador de iniciativas comunitárias e participativas em todo o país, lembra que o sentido comunitário traz identidade e propósito à vida e defende que “o grande desafio para as cidades do século XXI é adotarem uma gestão coletiva e colaborativa”. “O problema é que, por causa dos preços da habitação, as pessoas deixaram de estar nos sítios onde nasceram e viveram, o que acaba por ser um obstáculo para o amadurecimento de um tempo longo, de confiança, que o sentimento comunitário precisa”, reflete o investigador.  

O combate à especulação imobiliária é, precisamente, o dínamo do projeto La Borda, nascido a partir de um movimento de moradores que reivindicava a reabilitação, para uso cívico, de um antigo complexo fabril em Barcelona. Na altura, a autarquia atribuiu gratuitamente alguns lotes do terreno para habitação social e o grupo assumiu, ele próprio, a construção de um edifício, para o qual cada membro contribuiu, desde arquitetos a carpinteiros, passando por economistas e até ativistas do movimento okupa. A ideia inspirou outros grupos por toda a Europa, incluindo novas cooperativas de habitação em Portugal, por exemplo em Mafra ou no Barreiro.

Hoje, o La Borda é de todos, é da cooperativa. “E, juntos, beneficiamos de tantas coisas que não têm preço”, lembra Carles Camprubí, já no final da nossa visita, num terraço com vista para Montjuïc. “Além de vivermos num edifício social e ambientalmente responsável, este sítio ainda tem um pouco de comunidade de aldeia, pois fazemos muita coisa juntos e confiamos nos vizinhos para olharem pelos nossos filhos, regarem as nossas plantas ou fazerem compras por nós se tivermos um problema de saúde”, diz o arquiteto. Assim se constrói comunidade.   

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Plantar Comunidade, colher coletivismo

Tal como na cidade de Barcelona, em Lisboa o metro quadrado também é precioso, por isso a Associação Regador aproveita cada bocadinho de terra disponível na Horta do Alto da Eira, freguesia da Penha de França. As culturas espraiam-se, assim, ao longo de socalcos, mas ainda há espaço para uma arrecadação, uma sala-abrigo, uma estufa e, lá no cimo, um moinho de vento. Tudo cultivado, construído e cuidado pelas mãos da comunidade.  

A maioria chega de outros pontos da cidade, embora também haja gente do bairro, sobretudo vizinhos mais idosos, que ajudam no que podem, “nem que seja a afastar os malandros ou a deixar alguns restos para adubar as terras”, como nos conta Fátima Moreira, de 73 anos. E que jeito dão as alfaces, favas e cebolas que os jovens da associação costumam oferecer. “Para mim, já são família”, desabafa.

“Costumamos dizer que este é um espaço para plantar comunidade”, comenta Maria Freitas, uma das fundadoras da Regador. “As pessoas juntam-se em torno de algo que é maior do que elas e isso acaba por ter um impacto incrível, gerando uma relação intuitiva entre todos, mas também com o espaço público e a natureza”, concretiza. Enquanto ajeitam o terreno, outros voluntários lembram que, ao contrário das hortas comunitárias da Câmara Municipal, no Alto da Eira não há talhões individuais, porque “aqui a terra é de todos e para todos, não há a noção de posse, e é melhor trabalharmos uns com os outros, em vez de fazermos as coisas sozinhos”.  

Nesta horta também têm florescido muitas ideias que promovem a sustentabilidade enquanto fortalecem os laços comunitários, como refeições partilhadas, arraiais populares, um festival, uma escola com atividades educativas para as crianças e um coro comunitário. “No fundo, queremos unir as pessoas, aproveitando o espaço público, porque não há sítio melhor para fazer comunidade”, diz Maria Freitas. “E uma coisa é certa, estes projetos mostram que, juntas, as pessoas são mesmo mais felizes”.

Diversos estudos e especialistas sublinham a importância da vida em comunidade para a felicidade das pessoas e das cidades. À s_cities, Charles Montgomery, autor do livro “Happy Cities”, defende que “uma cidade feliz é um lugar que cultiva relacionamentos humanos, fortes e positivos”, até porque “não há ingrediente mais poderoso para a felicidade”. O urbanista canadiano lembra um trabalho da psicóloga Elizabeth Dunn, segundo o qual até as interações com estranhos deixam as pessoas mais alegres, porque passam a encarar-se como parte de um todo e “a querer participar na comunidade e na construção de lugares que nos unem”. 

E que cidades mundiais estão mais próximas deste ideal de felicidade?  Montgomery encontra a resposta em meios urbanos que favorecem um sentimento de pertença e destaca Paris, porque “está a produzir felicidade ao converter as ruas à volta das escolas em parques e praças onde as pessoas se podem reunir, em segurança”. Em Portugal, associações como a Regador vão colhendo felicidade e distribuindo-a por quem aparece.

Outro exemplo é a Associação Desportiva e Recreativa “O Relâmpago”. Fundada em 2021, continua a tentar arranjar uma sede, mas não é por isso que deixa de mobilizar a comunidade em vários bairros de Lisboa, sobretudo da zona oriental.
Mesmo com a casa às costas, procura resgatar o espírito associativo de outros tempos, seja lá onde for. “Para o futsal alugamos campos, mas noutras modalidades trazemos as pessoas para a rua, como no boxe, que treina debaixo das arcadas do Palácio da Justiça, ou do atletismo, que até criou os chamados treinos panfletários, em que distribuímos folhetos com as nossas ideias à medida que corremos”, diz Paulo Matias, da direção da associação.  A associação também ajudou a reativar a a Subida da Rampa do Vale Santo António, uma prova de ciclismo em contrarrelógio que o clube organiza em conjunto com o Mirantense Futebol Clube, “incentivando as pessoas a tomarem conta do que é seu, o espaço público, enquanto luta contra a crescente lógica de privatização das dinâmicas populares da cidade”, conta o também cofundador Vasco Alves. “É incrível como esta iniciativa consegue juntar toda a comunidade, desde os moradores, que enfeitam as varandas e apoiam entusiasticamente os ciclistas, ao comércio local. Até a funerária e a mercearia da rua decidiram ajudar”.  

Quem estuda estes fenómenos comunitários e participativos, como o investigador José Carlos Mota, sublinha o importante papel dos clubes e associações de bairro, mas também das escolas e das hortas comunitárias, por funcionarem como uma espécie de “incubadoras do sentido comunitário, que depois amadurece no espaço público, enchendo as ruas e praças das cidades”. Ainda assim, lamenta o tempo “de enormíssima fragilidade” que estes grupos atravessam. De facto, só em Lisboa, não faltam coletivos ameaçados e em risco de despejo, como a Zona Franca dos Anjos ou a Serigaita, e mesmo de outros que encerraram definitivamente, caso do Grupo Excursionista e Recreativo “Os Amigos do Minho”.  

Revendo-se em todos, o clube mais ativista da capital não se coíbe de participar em manifestações cívicas ou pelo direito à habitação porque, como lembra Paulo Matias, “nasceu para apoiar as pessoas e, tal como elas, sente na pele os mesmos problemas, a começar pela especulação imobiliária que nos impede de ter uma sede”. Com ou sem casa, os relampaguistas prometem continuar a lutar pelo coletivismo e fazer-se ouvir pela cidade.

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O futuro da comunidade: do digital ao pós-humano

“A comunidade é um lugar confortável e aconchegante. É como um teto sob o qual nos abrigamos da chuva forte, como uma lareira diante da qual aquecemos as mãos num dia gelado”, escreveu o sociólogo Zygmunt Bauman, descrevendo-a como uma espécie de paraíso onde encontramos segurança. Ainda assim, para o pensador, o sentimento de pertença tem vindo a diluir-se, como resultado de relações sociais menos duradouras e de um individualismo extremo que conduz ao isolamento e ao mundo virtual. Será este o futuro da comunidade?

Em entrevista à s_cities, o sociólogo urbano Paulo Peixoto acredita que vai tornar-se cada vez mais híbrida, ou seja, “com tendência a misturar a interação presencial e os vínculos digitais, mas sem substituir totalmente o contacto humano”, porque este deverá existir sempre. “Eu vou continuar a querer jogar futebol com o meu grupo de amigos, mas depois do jogo já não sentirei tanta necessidade de ficar com eles muito tempo porque sei que vamos ter uma interação digital ao longo da semana, falando do golo que marcámos ou falhámos”, exemplifica.

Incontornável é o crescimento das plataformas digitais e de um paradoxo que tem vindo a ganhar forma: estamos mais conectados do que nunca, mas, ao mesmo tempo, mais sós. Esta é uma das conclusões do estudo “Solidão e as Redes Sociais”, realizado em Portugal pelo ISPA e pelo Observatório Social da Fundação La Caixa. De acordo com o trabalho, quanto maior for o uso compulsivo das redes sociais, maior é a solidão relatada pelas pessoas, mesmo que mantenham relações satisfatórias com o grupo mais próximo (amigos, familiares, namorados). “O problema explica-se, em parte, pelas emoções negativas que estas redes geram, levando-nos a pensar que os outros têm uma vida muito mais feliz que nós. Além disso, é sabido que o nosso cérebro evolui para sentir conexão social quando os outros estão fisicamente presentes, o que tem vindo a perder-se”, diz o autor do estudo, Rui Miguel Costa. Para o especialista em ciberpsicologia, se a comunicação presencial continuar a ser substituída pelo digital, “o resultado serão cidades com pessoas cada vez mais sós e isoladas, que caminham para um deserto, ou antes, para um tecnodeserto”.

O investigador da Universidade Europeia alerta para um “problema adicional” associado à inteligência artificial (IA): o uso compulsivo dos chatbots. “Noutro trabalho que estou a concluir sobre a relação entre a IA e a solidão apercebi-me de uma realidade pior porque, se nas redes sociais as pessoas ainda têm contato umas com as outras, no caso dos chatbots já há quem os utilize apenas para aliviar sentimentos de solidão. E isso é uma alienação enorme”, revela à s_cities. Paulo Peixoto lança outras pistas para o futuro, acreditando que as comunidades tendem a ficar cada vez mais desiguais, mas também mais baseadas em interesses comuns e, por isso, mais globais, mobilizando-se a partir de temas como as crises climáticas ou políticas.

Por outro lado, o professor da Universidade de Coimbra prevê um aumento exponencial das microcomunidades, transformadas muitas vezes em cápsulas sociais ou bolhas de segregação “em que os membros bloqueiam tudo aquilo que é diferente”. “Isso já acontece com os hikikomori japoneses, que não saem de casa e passam a vida a jogar online uns com os outros, a ponto de não sentirem qualquer apetência pela vida sexual ou familiar”, recorda o especialista.

Por fim, levanta outra hipótese, em jeito de pergunta: e se houvesse comunidades pós-humanas? “Não sabemos para onde é que as biotecnologias e a computação quântica nos levam quando transformarem a inteligência artificial generativa noutra coisa qualquer, por isso, embora seja muito especulativo, podemos imaginar comunidades com diferentes formas de consciência ou mesmo que não reúnam só a espécie humana”, conclui. O futuro não espera, mas os especialistas acreditam que o caminho da comunidade vai continuar a marcar o amanhã das cidades. Seja num edifício cooperativo, numa horta urbana, num clube de bairro ou em frente a um computador, juntos seremos sempre mais fortes.

Publicado em 28 Janeiro, 2026 - 06:50
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