Academia e jovens fazem da escola um laboratório de mudança

Natureza

Academia e jovens fazem da escola um laboratório de mudança

Ana Mota, Texto
Catarina Alves, Fotografia 

Tudo começou com os jovens a assumir o papel de investigadores e a pensar em soluções ambientais concretas, políticas que podem ser implementadas em cada região. Através do projeto ClimActiC, os alunos de nove escolas de várias regiões do país confrontaram ativistas, empresários, políticos e cientistas, num trabalho de “mobilização comunitária”, onde o objetivo foi impulsionar a mudança.

Uma árvore climática, nuvens de soluções e um speed dating climático fizeram parte das metodologias participativas dos Laboratórios Climáticos Colaborativos que puseram em diálogo alunos, professores, ativistas, empresários, políticos e cientistas em oito regiões do país. O projeto saiu da academia para ganhar uma “dimensão participativa”, na qual os mais novos foram o “grande ponto focal”. Os jovens assumiram a liderança da investigação e, depois de identificarem os problemas ambientais de cada região, convenceram os vários atores locais a tomar decisões. “O ClimActiC foi muito sustentado e ancorado numa lógica participativa e a partir das comunidades, usando os jovens e as escolas como catalisadores das mudanças comunitárias que queriam ver acontecer. Isso é muito interessante, sobretudo quando pensamos que os jovens normalmente têm pouca palavra a dizer”, explica Carla Malafaia, coordenadora dos laboratórios, uma das fases fundamentais do projeto.

Em Vila Verde, Braga, os jovens identificaram as "ilhas de calor" como o principal problema no concelho, com as zonas urbanizadas da região a registarem temperaturas muito mais elevadas do que as áreas rurais. Como solução, os alunos propuseram a criação de um gabinete concelhio de informação e apoio a candidaturas para a instalação de painéis solares, que criam zonas de sombra sobre os telhados e superfícies e reduzem a absorção de radiação solar. Por outro lado, ajudam a promover a transição para energias renováveis, reduzem a dependência dos combustíveis fósseis e as emissões de gases com efeito de estufa, fatores que intensificam o fenómeno das ilhas de calor. A resposta foi apoiada por um ativista da Rebelião Climática e por um membro do executivo autárquico que se comprometeu a discutir o assunto em assembleia municipal. “A ideia do laboratório climático colaborativo era ser um espaço de cocriação de soluções, naquilo a que chamamos soluções climáticas acionáveis. O objetivo é que saia destes laboratórios uma solução concreta, política, para a região e que possa ser implementada”, afirma a professora e investigadora Carla Malafaia.

Às ilhas de calor em Vila Verde, os jovens estenderam as preocupações climáticas ao lixo depositado nas margens do rio Tâmega, em Chaves, ou à seca que afeta as cidades de Macedo de Cavaleiros e Vila Nova de Famalicão. Depois de identificados os principais problemas ambientais de cada localidade, os alunos confrontaram os decisores locais e discutiram medidas de mitigação, numa metodologia que teve como base a “intervenção comunitária”.

A prática faz parte da identidade do Centro de Investigação e Intervenção Educativa, unidade de Ciências da Educação da Universidade do Porto, que coordenou o ClimActiC. “Quando falamos de transformar uma determinada comunidade, falamos da matéria que compõe essa comunidade. É feita da esfera mais ativista, mas também é feita da esfera económica, política e científica. É a partir do pluralismo que se constrói mudança comunitária. Não conseguimos impulsionar a mudança a partir do nosso movimento social, sem dialogar ou criar pontes com as outras esferas e tecidos da comunidade”, afirma Carla Malafaia, que fez parte do projeto que arrancou em junho de 2021 e terminou dois anos depois.

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Carla Malafaia foi uma das investigadoras envolvidas no projeto ClimActiC

Académicos dão continuidade ao ClimActiC

Como forma de potenciar a “tomada de decisão política”, com soluções concretas que sejam implementadas pelo poder local, a equipa de investigadores, um consórcio que junta psicólogos, físicos e engenheiros químicos da Universidade do Porto, submeteu um novo projeto de investigação. Através do Civitas, querem promover a democracia participativa, com a organização de assembleias de cidadãos, em quatro das oito regiões do ClimActiC: Chaves, Peso da Régua, Vila Nova de Famalicão e Vila Verde. “Sabemos que ativamos os jovens politicamente, ativamos as comunidades civicamente, não tenho dúvidas, mas às vezes isso não se reflete de forma tão tangível. A democracia participativa é muito interessante, mas agora é preciso a parte deliberativa, é preciso que no parlamento se aprovem leis”, afirma Carla Malafaia, investigadora que também faz parte da equipa do projeto Civitas.

As assembleias de cidadãos, “mecanismo deliberativos que têm sido mobilizados em várias partes da Europa e na América Latina”, obedecem a um conjunto de regras, de forma a estarem representados diferentes grupos sociais, económicos e etários de cada região. Muitas das vezes, são realizadas em colaboração com as autarquias, como forma de potenciar o “efeito deliberativo” ao nível político. “Acho que as lógicas comunitárias devem ser restabelecidas, porque é a partir delas que também restabelecemos a solidariedade e a democracia. Sendo que, construir comunidades é confrontar lógicas e dinâmicas de poder, entre diferentes esferas e grupos”, afirma Carla Malafaia.

A presença de comunidades de emigrantes foi um dos critérios para a seleção das regiões onde será implementado o Civitas. Um dos objetivos do projeto é atuar onde existem “grupos que não votam, que não são eleitores nem cidadãos” em Portugal. “Queremos criar uma plataforma que permita dar voz às comunidades que não a têm. Estas lógicas comunitárias devem ser restabelecidas, porque é a partir delas que restabelecemos a solidariedade, a democracia”, acrescenta a académica Carla Malafaia.

A candidatura do Civitas, programa apoiado pelo Norte 2030, já foi apresentada e o projeto deverá arrancar no início do próximo ano letivo. Além da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, o programa é desenvolvido em colaboração com a Faculdade de Ciências e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

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Publicado em 10 Fevereiro, 2026 - 09:00
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