
Sociedade
Comunidade de famílias com crianças explora arte e natureza na cidade
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Raquel Pimentel, Fotografia
Parques, cafés e espaços culturais independentes de Setúbal são ponto de encontro de uma nova comunidade para famílias, a minines, que desafia pais e crianças a viver mais a cidade. O projeto junta portugueses e imigrantes de todo o mundo nesta rede de apoio e convívio, fazendo da arte e da infância ferramentas de integração social.
Se a maternidade já costuma trazer muitas perguntas, ser mãe imigrante, longe da família, trouxe ainda mais a Mariana Serafim. A brasileira de 37 anos, a viver há três em Setúbal, começou a questionar o afastamento social desta fase da vida e juntou-lhe outra questão que a desassossegava: onde estão as experiências culturais para as crianças mais pequenas na cidade? O vazio da resposta encheu-a de vontade de transformar a experiência pessoal numa iniciativa coletiva, a que chamou minines.
Esta nova comunidade funciona como uma espécie de rede de apoio entre famílias que cruza cultura, convívio e troca de experiências, estimulando os mais pequenos, mas também chamando os adultos para a brincadeira e para a aprendizagem conjunta. “Ao pesquisar por eventos para a minha filha, descobri que são todos muito infantilizados e não olham para as crianças como pessoas pensantes, além de envolverem pouco as famílias. Com este projeto, criamos espaços de encontro reais, não apenas atividades para ocupar o tempo das crianças, mas experiências culturais que possamos viver juntos”, diz a programadora cultural, mais conhecida como Nika.
A ideia é descobrir, explorar e vivenciar a cidade de Setúbal e arredores, ocupando parques verdes e praias, mas também cafés, mercados e espaços culturais independentes onde as crianças e as famílias sejam bem-vindas. “Não temos uma sede fixa, por isso diversificamos os locais o mais possível e, por vezes, até vamos para sítios pouco conhecidos, como o Bosque da Azeda, que nem aparece no Google Maps, mas é um espaço cheio de possibilidade”, revela a fundadora da minines, cujo nome mistura as palavras “mini” e “ness”, uma alusão ao monstro do Lago Ness que a filha Yara tanto gosta.
Este bosque recebeu o lançamento oficial do projeto, a 10 de março, juntando quase vinte adultos e crianças durante uma caça ao tesouro. Os miúdos foram os protagonistas do encontro, brincando, correndo e decifrando pistas, mas todos participaram na atividade, o que valeu muitos elogios dos adultos. “Por vezes, pais e filhos parecem viver em estratosferas diferentes porque as atividades para crianças não costumam envolver os mais velhos, o que é pena, já que nós temos muita vontade de participar ativamente no desenvolvimento deles e de criar uma conexão saudável, algo que aqui passámos a ter”, afirma a participante Catarina Almeida, mãe de dois meninos, a viver em Palmela.
Também a médica Madalena Espada e o músico Fernando Cruz dizem que esta comunidade “é uma ótima ideia”, até porque “os parques infantis muitas vezes ficam saturados”, o que os leva a procurar “opções fora da caixa, em espaços verdes, que sejam mais criativos” para as crianças. “A nossa filha mais velha [3 anos] adora esse tipo de atividade e embora frequente atualmente a escola, vamos tirá-la porque queremos que explore mais o exterior e tenha outros tipos de vivências”, acrescenta o casal com dois filhos.
Arte é integração e inclusão
Para já, a comunidade minines reúne cerca de 10 famílias inscritas, provenientes de várias partes do mundo, desde Portugal ao Brasil, passando pela Grã-Bretanha, Alemanha, Rússia, Bangladesh e Angola. Algumas até cruzam diversas origens, como acontece com o caso de Nika, uma vez que ela é brasileira e o marido britânico, enquanto a filha Yara já nasceu em Portugal. Também por isso, o projeto é um espaço privilegiado de integração social, sublinha a fundadora, reiterando o objetivo de “fomentar e estimular a diversidade com encontros presenciais, trocas seguras e apoio real”.
O desejo de fortalecer o crescimento das crianças através da arte acaba por ser um denominador comum nestes pais e mães que se juntaram ao projeto, tal como nos outros que participam pontualmente nas atividades. Artes visuais, teatro, música e literatura são algumas das propostas de um “currículo livre de vivências”, pensado para ampliar o repertório cultural na infância e assente num pressuposto comum: “as crianças pequenas são capazes de viver a arte a cultura desde cedo, quando inseridas em ambientes preparados para a experimentação, a autonomia e a expressão”.
Este envolvimento de Nika com a arte não é de agora, já que foi uma das fundadoras da VALSA, associação cultural de Lisboa dedicada à promoção de artistas independentes. A brasileira esteve também na origem do antigo Coletivo Coral, outro projeto na capital que potenciava o poder da cultura e o fortalecimento da comunidade. Pelo meio, a mudança para Setúbal trouxe-lhe a experiência da maternidade, que acabou por influenciar decisivamente o surgimento da minines e este novo foco nas crianças. “Antes eu pensava na criação de espaços possíveis para o presente. Agora, penso também na formação de futuros possíveis, a partir da infância”, reflete esta mãe empreendedora.
O objetivo é criar miúdos felizes, numa cidade mais inclusiva e amiga das crianças, que respeite o tempo, o movimento e o ritmo dos mais pequenos, bem como de todas as outras gerações que dela usufruem, conclui Nika. Porque, afinal, “quando a infância é cuidada em comunidade, a cidade também muda para melhor”.
Como e quando participar
Pensado para famílias que querem viver a cidade através da arte e da natureza, este projeto destina-se, sobretudo, a pais e mães com crianças pequenas, entre os 18 meses e os cinco anos. Mas não exclui ninguém, antes pelo contrário, como mostrou a caça ao tesouro no dia do lançamento, onde também esteve um bebé de 11 meses e um menino de 6 anos. A inscrição na minines está associada a uma mensalidade de 6€ por mês que dá acesso, por exemplo, a um grupo de partilha, prioridade nas atividades e descontos em diversos parceiros locais, como uma clínica de fisioterapia pediátrica e de apoio à maternidade, um restaurante ou uma editora infantil. Quem não fizer parte da comunidade, também pode participar em todas as atividades e eventos do grupo, sejam eles pagos ou gratuitos.
A minines ainda está a dar os primeiros passos, mas já tem uma agenda recheada de atividades para os próximos tempos, todos em Setúbal. No dia 22 de março organiza a mamatinê, evento que transforma o restaurante Calma calma numa espécie de discoteca onde as mães e pais dançam, passam música e convivem durante a tarde. “É uma oportunidade para estarmos com as nossas crias num ambiente seguro para crianças, mas desta vez sem música infantil, mas para todas as idades” explica Nika à s_cities. Dois dias depois, a 24, há um minissarau no espaço Pólvora D`Cruz com apresentações de dança, música e teatro (4€ para membros da comunidade; 5€ avulso), enquanto a 26 é a vez do Playgroup juntar famílias e crianças no Parque da Algodeia. “Trata-se é um grupo de brincadeira na natureza associado sempre a uma proposta artística, como pinturas com tintas naturais em tecidos ou colagem com coisas da natureza. Neste caso há um custo associado devido ao valor dos materiais, de 10€ para os membros e de 15€ para os restantes”, diz a fundadora da comunidade.
A programação de abril também deverá ser anunciada em breve. Além dos já conhecidos playgroups, minissaraus e clubes de leitura, estão a ser preparadas algumas novidades, como um workshop de cozinha para bebés e crianças ou o ateliê Rabisco & Refresco, que desafia a experimentar e a explorar diferentes materiais artísticos. Em todas as atividades, procura-se potenciar a autonomia, a criatividade e a expressão das crianças, sempre em total comunhão com a família, a arte e a cidade.