Viver próximo de jardins combate a solidão

Natureza

Viver próximo de jardins combate a solidão

Ana Mota, Texto
Rafael Esteves, Fotografia 

Viver próximo de jardins e de zonas com maior biodiversidade contribui para a redução do sentimento de solidão. As conclusões são de um estudo realizado por investigadores portugueses, que envolveu mais de 600 participantes. Assim como os espaços verdes, os terceiros espaços, como mercearias ou cafés, também reforçam as conexões sociais.

A solidão é tão mortal quanto fumar 15 cigarros por dia. É um problema social, mas também de saúde pública, que pode estar associado ao surgimento de doenças como a depressão, demência, doença coronária ou AVC. Foi por conhecerem a emergência do problema, em cidades cada vez mais solitárias, que uma equipa de investigadores analisou as exposições ambientais de mais de 600 adultos residentes no Porto. O estudo concluiu que viver próximo de jardins, numa distância de até 100 metros, reduz a solidão, especialmente na população mais idosa. “O contacto quotidiano com a natureza tem um efeito protetor no bem-estar social, na mitigação da solidão, assim como viver em áreas com maior biodiversidade, com mais espécies animais. Os espaços verdes próximos de habitações permitem visitas frequentes a parques ou jardins, onde há um contacto mais próximo com família, vizinhos e até desconhecidos. Isto potencia a conexão social e mitiga a solidão”, explica Ana Isabel Ribeiro, professora e investigadora da Universidade do Porto.

A solidão é definida como uma experiência desagradável que acontece quando a rede de relações sociais de uma pessoa é percecionada como sendo deficiente nalgum aspeto. Pode ser num aspeto quantitativo, pela falta de contacto com outros, ou qualitativo, quando essas relações são poucos profundas e não vão ao encontro das necessidades da população. “Podemos sentir-nos sós no meio de uma multidão e podemos estar fisicamente sozinhos e não nos sentirmos sós. Aquilo que também nos interessa é perceber porque é que as cidades são espaços que promovem a solidão”, acrescenta a geógrafa Ana Isabel Ribeiro, coautora do estudo Health & Place, onde foram recolhidos e analisados dados ao longo de 25 anos de vida de um grupo de pessoas com mais de 65 anos, residentes no Porto. 

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Importância dos terceiros espaços

A investigação nas áreas da Sociologia e da Geografia demonstra que o excesso de pessoas, em áreas densamente populadas, pode fazer com que os indivíduos se retraiam nos relacionamentos sociais e procurem o isolamento. O fenómeno, descrito como “isolamento na multidão”, que ocorre quando as pessoas se retraem socialmente como resposta ao excesso de estímulos, sustenta a próxima fase do projeto Lone Places, onde está inserido o estudo sobre a exposição a espaços verdes.

Assim como os jardins e parques, que desempenham um papel determinante na promoção de encontros, também os terceiros espaços ajudam a reforçar as conexões sociais. Pequenas lojas de proximidade, cafés ou mercearias são fundamentais para a ligação com desconhecidos e para o reforço do sentido de comunidade. “Os terceiros espaços serão um grande foco deste projeto porque são lugares que promovem as ligações com desconhecidos, aquilo a que chamamos ligações fracas. São essas ligações que nos ligam à comunidade e que nos dão também uma maior sensação de pertença. O objetivo é ter uma abordagem um bocado mais holística que tenha em consideração a morfologia urbana, mas também a própria arquitetura residencial”, acrescenta Ana Isabel Ribeiro, que refere ainda a importância da pedonalização das cidades.

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Envolvimento cívico como motor de cidades mais verdes           

Cidades densas, concentradas, mas que promovem o contacto com a natureza e reforçam o sentimento de bairro, de comunidade. É assim a cidade ideal, fantasiada por Paulo Farinha Marques, arquiteto paisagista e professor na Faculdade de Ciência da Universidade do Porto. É através da imaginação que o diretor do Jardim Botânico do Porto descreve aquelas que são as características fundamentais para cidades mais verdes, que promovem o bem-estar. “No passado era normal as pessoas terem quintas, viverem próximo do campo e em contacto com o meio rural. Hoje, com a alteração ao conceito de cidade, é preciso promover essa proximidade com os espaços verdes. Existem cada vez mais estudos que quantificam os efeitos desses espaços na nossa vida e na nossa saúde física e psicológica”, refere Paulo Farinha Marques.

Embora o Plano Diretor Municipal do Porto aposte na infraestrutura verde, nomeadamente através da criação de corredores verdes, que garantem a manutenção da biodiversidade, é preciso continuar a lutar pelo espaço público de qualidade, numa cidade consolidada como o Porto. “É nos centros com maior concentração de pessoas que a disputa pelo espaço é maior. É onde há maior conflito de interesses das mais diversas atividades económicas. No caso do Porto, a cidade ficou bastante mais densa do ponto de vista da construção e é um desafio enorme encontrar esses espaços de acesso público. É uma luta quer ideológica, quer política, que tem de ser exercida pelos cidadãos de forma a reivindicarem o interesse de acesso aos espaços verdes, como reivindicam o acesso à saúde ou educação”, explica Paulo Farinha Marques, que desenhou o plano de arborização para a cidade do Porto.

Por se tratar de uma questão de interesse público, a equipa de investigadores do Lone Places vai envolver a sociedade, no âmbito do projeto de investigação. A recolha de informação e de dados estatísticos faz parte do processo de investigação que termina com a realização de workshops colaborativos, que envolvem investigadores, cidadãos e decisores. O objetivo é criar, através da participação cidadã, um conjunto de recomendações para a criação de cidades pró-sociais, que promovem o contacto social como componente de saúde. As orientações e medidas estabelecidas serão partilhadas com os municípios da Área Metropolitana do Porto que serão sensibilizados para a integração dos espaços verdes de proximidade nos instrumentos do ordenamento do território. 

Publicado em 23 Março, 2026 - 13:34
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