Arquitetura portuguesa deixa marca na Albânia

Urbanismo e Sociedade

Arquitetura portuguesa deixa marca na Albânia

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
D.R., Imagens

 

Tirana e outras regiões da Albânia vivem uma profunda metamorfose urbana e os arquitetos portugueses estão no centro desta transformação. O ateliê OODA, Souto de Moura, Camilo Rebelo e Álvaro Siza são protagonistas num país que quer romper com o passado isolacionista e encontrou no traço luso o equilíbrio certo entre o pragmatismo e a poesia visual.

Se a capital albanesa é hoje um dos epicentros da arquitetura experimental na Europa deve-o em grande medida ao primeiro-ministro Edi Rama. O artista e ex-presidente da câmara de Tirana tornou-se figura central da transformação urbana do país ao elevar a arquitetura para um estatuto de ferramenta política e social. Com ele, as portas da capital abriram-se aos grandes ateliês internacionais, incluindo os portugueses, que há muito eram seguidos pelo governante. “Há três razões pelas quais gosto muito de Portugal", disse Edi Rama em finais de 2024, elogiando José Mourinho, António Costa e… os arquitetos portugueses. “Estou muito, muito feliz e orgulhoso por termos o melhor da arquitetura portuguesa a trabalhar aqui, desde Álvaro Siza a Souto de Moura, até aos arquitetos mais jovens. E espero que tenhamos ainda mais deles. São incríveis, excelentes", afirmou numa conversa com jornalistas.

Edi Rama também tem elogiado o trabalho de Camilo Rebelo e do Oporto Office for Design and Architecture (OODA), um “incrível novo estúdio”, que nos últimos anos conquistou grande visibilidade na Albânia. Só este ateliê portuense conta com cerca de 20 projetos no país balcânico, distribuídos por diferentes regiões, entre propostas de concurso, projetos em fase de licenciamento e obras em construção. A entrada no cada vez mais disputado mercado albanês aconteceu através de um concurso internacional para uma torre junta à Praça da Ópera, em Tirana. “Ficámos em segundo lugar, mas o processo foi amplamente divulgado e transmitido na televisão albanesa. A exposição mediática revelou-se mais relevante do que o próprio resultado e foi essa projeção pública que nos conduziu à primeira encomenda concreta no país, um posto de combustível, entretanto já construído”, recorda Diogo Brito, cofundador do OODA. Na opinião do arquiteto, “este projeto funcionou como ponto de ancoragem para uma atuação mais consistente no território”, lançando as bases para novos trabalhos e, mais tarde, para a abertura de um escritório na cidade.

Determinante foi também a vitória no concurso internacional para a nova sede da Klan TV (imagem de destaque), um dos principais operadores televisivos privados do país, com um projeto inspirado no imaginário do cinema e da televisão. O desenho faz lembrar um conjunto de bobines de filme que “surgem como um elemento conceptual que organiza o edifício e lhe dá identidade sem comprometer a sua lógica construtiva”, explica o responsável. Depois deste, seguiu-se o primeiro projeto de um ateliê português a entrar em construção na Albânia, chamado Hora Verticale. Trata-se de uma vila de 140 metros de altura que remete para o imaginário de um amontoado de cubos ou legos, cada um com sete andares, a altura média dos edifícios de capital albanesa. “A proposta interpreta a densidade e a complexidade urbana de Tirana através de uma lógica de empilhamento que desafia a leitura convencional da torre”, explica Diogo Brito à s_cities, lembrando ainda que o projeto integra habitação, serviços e um parque público, num total de 55 mil m².

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Hora Vertikale
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Bond Tower

Também em construção está a Bond Tower, uma torre residencial de 50 andares composta por dois volumes com uma curva suave na parte inferior, lembrando a silhueta de uma bailarina em posição plié (com os joelhos fletidos e as costas direitas). Junto a esta vai nascer a Oricon Tower, mais um projeto do OODA, mas agora em parceria com Eduardo Souto de Moura. O trabalho reúne "duas gerações de arquitetos num projeto que cruza experiência, inovação, rigor disciplinar e uma leitura contemporânea da cidade”, ao mesmo tempo que (em conjunto com a Bond Tower) surge como um pórtico de entrada na zona poente de Tirana. Isto porque “funciona como um elemento de transição entre o tecido urbano consolidado e as novas áreas de expansão, ao longo do eixo que liga o aeroporto ao centro”, acrescenta Diogo Brito. Entre os projetos do OODA fora da capital destaca-se o The Concave, um boutique hotel na Riviera Albanesa em formato côncavo, ainda numa fase de desenvolvimento, que parece o prolongamento da abrupta encosta em redor da Praia de Llamani.

Para Diogo Brito, estes e os outros projetos são o reflexo do dinamismo e do momento de redefinição urbana e internacional que a Albânia atravessa. “Existe uma estratégia clara de utilizar a arquitetura como instrumento de transformação económica e cultural”, defende o cofundador do OODA, para quem “o contexto regulatório mais flexível permite maior liberdade de abordagem, mas também exige responsabilidade”.

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Oricon (à esquerda) e Bond Tower (à direita)
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The Concave

A curiosidade de Siza e o entusiamo de Rebelo

Camilo Rebelo é outro nome português já consolidado na Albânia, tanto pela importância do trabalho desenvolvido no país, como pela participação ativa em diversos eventos que têm discutido a revolução urbana de Tirana. O arquiteto, também pertencente à chamada “Escola do Porto”, recebeu um primeiro convite de Edi Rama em 2013, mas só dez anos depois participou pela primeira vez num concurso. O projeto apresentado – um estádio “escondido” por um jardim – não chegou a avançar, mas o primeiro-ministro gostou tanto do desenho que voltou a desafiá-lo. O resultado foi uma torre de 38 andares (mais 4 subterrâneos) na capital que, curiosamente, ganhou um nome português. “Inicialmente era para se chamar Ninho, mas depois passámos a chamar-lhe Fari, até que o cliente perguntou como se diz em português e explicámos-lhe que é Farol. Ele gostou e achou piada à sonoridade por isso ficou mesmo Farol”, conta Camilo Rebelo.

A este juntam-se agora mais meia dúzia de projetos, como o The Lake, que propõe requalificar a envolvente de um lago em Tirana, por meio de um complexo com zonas verdes, apartamentos, hotelaria e restauração, ou o Ring, uma espécie de cidade-fortaleza distribuída em círculo numa zona de montanha. Muita projeção ganharam também os três projetos que Camilo Rebelo está a desenvolver em conjunto com Álvaro Siza: uma torre em Tirana, a Trilogy, que junta um museu subterrâneo e um jardim público ao edifício de 60 andares; outra em Vlora, na Riviera Albanesa; e um masterplan para quatro quilómetros de costa a norte da capital. Estes trabalhos acabaram por despertar o interesse de Álvaro Siza para o crescente dinamismo da Albânia. “O Siza é uma pessoa muito curiosa e foi-me perguntando sempre como é o país, o que está a acontecer e o que vai ser no futuro. E eu transmiti-lhe que se encontra um espírito muito otimista por todo o lado, tanto individual como coletivo”, diz Camilo Rebelo. “Não sei se vai durar muito tempo ou não, mas a verdade é que há qualquer coisa de diferente e especial na Albânia”, acrescenta.

Os dois arquitetos visitaram juntos uma exposição com trabalhos de Edi Rama, realizada em 2023 na Galeria Nuno Centeno, no Porto, e ambos ficaram “maravilhados com a forma como ele se aproxima da arquitetura e dos arquitetos, porque rapidamente encontramos afinidades nas suas expressões e nas suas ideias”, comenta Camilo Rebelo. Fazendo uma estimativa por alto, acredita que hoje possam estar a trabalhar na Albânia cerca de 150 ateliês internacionais, mas lembra que tudo começou com uma simples decisão. “A primeira ideia que Edi Rama teve como presidente da câmara de Tirana, ainda antes de ser primeiro-ministro, foi pintar as fachadas da cidade com cores vivas. É verdade que se tratou de um makeup, porque ainda não havia condições para renovar o tecido urbano, mas já demonstrava a tal afinidade e vontade de mudança”, defende o arquiteto, convidado a participar nos mais importantes eventos de arquitetura do país, como o Festival Pão e Coração.

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Farol
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Ring

E o que leva a Albânia e o seu primeiro-ministro a gostar tanto do traço e do trabalho dos portugueses? Camilo Rebelo encontra várias razões possíveis, mas, curiosamente, atribui a primeira ao próprio Álvaro Siza. “Por aquilo que sei, a grande referência de Edi Rama era o Siza. Pelo simples facto de ele ter uma filha arquiteta com uma enorme admiração pelo trabalho do mestre”, revela à s_cities. Além disso, “eles acham-nos muito interessantes por sermos o fim da linha”, a que se junta ainda o “nosso grande comprometimento com o trabalho” e um “pragmatismo” facilitador. “Esse é um aspeto que interessará, provavelmente, ao Edi Rama. Porque ele admira uma arquitetura criativa, mas que resulta de coisas simples, ou seja, aposta em algum risco, mas sempre com o pressuposto das obras avançarem, não ficarem na gaveta. E nós, portugueses, conseguimos isso, a par de uma criatividade que, às vezes, é feita com muito pouco”, remata Camilo Rebelo.

Edi Rama gosta de lembrar que, atualmente, estão envolvidos em projetos na Albânia quase uma dezena de vencedores do prémio Pritzker, o principal galardão mundial de arquitetura. Desses, dois são portugueses – Álvaro Siza e Souto de Moura –, mas o contingente luso conta com outros nomes cada vez mais respeitados internacionalmente, como Camilo Rebelo, Manuel Aires Mateus, Nuno Melo Sousa ou o ateliê OODA. Juntos, têm ajudado a redesenhar o horizonte de Tirana e agora ambicionam fazer o mesmo por todo o país, desde a costa até à montanha, deixando uma marca indelével nos Balcãs.

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Vlora Tower
Publicado em 26 Março, 2026 - 07:26
Arquitectura
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