
Cultura
Bauhaus do Mar imagina cidades mais do que humanas
O projeto de investigação convida a sair da perspetiva humana para que se vejam outras coisas, numa proposta que inclui outros animais, outros seres vivos e outros ecossistemas. Uma equipa multidisciplinar de investigadores imagina um futuro que responde à natureza como um todo, num exercício de descentramento do humano. O projeto Bauhaus do Mar procura soluções de sustentabilidade que considerem todos os envolvidos, até os peixes.
A coordenadora de arte e cultura do Bauhaus of Sea Sails, ou Bauhaus do Mar, compara o gesto de descentramento do humano com a ficção, porque é através dela que se ensaia possibilidades e se cria condições para testar novas propostas. Assim como na literatura, nas artes cénicas ou no cinema, também a arquitetura e o design podem servir-se do imaginário para desenhar um futuro que não pense nos humanos como uma espécie isolada, mas que olhe para as pessoas “enquanto partes constituintes de ecossistemas”. Trata-se de “imaginar futuros diferentes daqueles que são apresentados como inevitáveis”, através do descentramento do humano. É assim que o consórcio da Bauhaus do Mar encara o desafio das alterações climáticas, com base nos três pilares da Nova Bauhaus Europeia: sustentabilidade, comunidade e estética. “Pensamos que os futuros só devem ser imaginados quando estamos em interdependência com o meio natural e com os ecossistemas em que vivemos. Esse gesto de descentramento amplia a nossa humanidade”, começa por explicar a investigadora e arquiteta Mariana Pestana, uma das coordenadoras do Bauhaus do Mar.
A partir do cruzamento de diferentes áreas como a arquitetura, design, arte, tecnologia e ciência, o projeto de investigação procura imaginar outra relação das cidades com o oceano. Através da implementação de pequenos projetos piloto, apresenta e debate novas abordagens das cidades costeiras com o mar, rios e lagos. “Criamos uma série de projetos a que chamamos drops, pequenas gotas, mas que acreditamos que têm um potencial de transformação grande. Procuramos ensaiar possibilidades de uma forma de viver mais próxima deste imaginário. Da forma como interpretamos a Nova Bauhaus Europeia”, afirma a coordenadora de artes e cultura do Bauhaus do Mar.
Entre as propostas testadas está o projeto Lisbon Spice Rack, que consistiu na criação de um menu gastronómico regenerativo, desenvolvido a pensar no bem-estar do ecossistema do rio Tejo e na regeneração das espécies. Através de um processo de aprendizagem sobre plantas comestíveis selvagens e plantas marinhas, o grupo de trabalho, liderado pela arquiteta e artista taiwanesa Rain Wu, apresentou uma receita que utiliza ingredientes provenientes das Salinas do Samouco, as únicas salinas sobreviventes do rio Tejo. O projeto, que resultou de uma residência internacional de três meses destinada a projetos focados em práticas alimentares sustentáveis, terá continuidade através da criação de uma cozinha comunitária instalada na Biblioteca Marvila, na cidade de Lisboa.
Arquitetura e design mais do que humana
A investigação em torno da Bauhaus do Mar atraiu um conjunto de investigadores interessados em explorar o “mais do que humano”, ou a arquitetura e design interespécies. Katerina Inglezaki, uma das investigadoras do grupo, que surgiu no Instituto de Tecnologias Interativas, uma das unidades de investigação do Instituto Superior Técnico, tem trabalhado em novos modelos cartográficos que mostram os territórios como matéria viva, “como mapas de lugares que não são inertes”. O objetivo é problematizar a relação entre a arquitetura, os seus materiais e a paisagem. “Se vamos trabalhar numa lógica de interdependência e para ecossistemas, que não são coisas rígidas, o modelo cartesiano que temos de representação na arquitetura não funciona. Temos que reimaginar essa representação. No trabalho interespécies ou de descentramento humano é necessário reimaginar a relação entre as pessoas e a realidade”, refere Mariana Pestana, referindo-se à exposição Interespécies, que foi mostrada no Centro de Arquitectura, MAC-CCB.
Para a investigadora, o exercício de descentramento necessário à criação de arquitetura para ecossistemas começa no exercício da empatia, enquanto uma relação afetiva entre pessoas, lugares, objetos e materiais. A ideia de poder ver a partir de outra perspetiva, que ajuda no exercício de “sair de si” e pensar no que é bonito, sustentável e comunitário, não da perspetiva humana, mas na perspetiva de, por exemplo, um peixe.