Moldar a relação com o território através da participação cultural

Cultura

Moldar a relação com o território através da participação cultural

Cátia Vilaça, Texto
Rafael Esteves, Fotografia 

Participar de um coletivo artístico ou visitar um museu imersivo entre milhares de turistas são experiências culturais que várias cidades oferecem. As diferentes formas de participação cultural moldam a relação com o território e a comunidade onde nos inserimos.

É na antiga central termoelétrica do Freixo, no Porto, agora transformada em espaço de criação artística, que André Pipa e Noah Leijssen preparam as próximas atividades do Coletivo Febre. Fundado em 2021, não tinha (e até hoje não tem) um conceito muito concreto na base. Mas há três vertentes em destaque: uma mais social, outra mais autoral, e uma terceira didática, dedicada à produção de workshops de construção de materiais. No lugar de Azevedo, na freguesia de Campanhã, o grupo promoveu um projeto que culminou num museu urbano feito a partir de objetos construídos pela comunidade local. Fora do Porto, já construíram peças de mobiliário para o festival Tremor, nos Açores.

Ainda que as atividades sejam diversificadas e as linhas de ação fluidas, os três cofundadores, todos antigos estudantes da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), tinham um sentimento comum: havia conhecimentos e competências que não se adquiriam no sistema de educação formal. “Fundámos este coletivo para tentarmos educar-nos e ter uma relação mais próxima com a matéria e com técnicas de construção, e ao mesmo tempo também quisemos começar uma prática mais engajada politicamente e mais consciente do ponto de vista social”, descreve André Pipa. Depois de algumas afinações, o formato de cooperativa acabou por revelar-se a melhor resposta a estes objetivos. O Febre é agora um dos projetos da cooperativa Cesta, fundada após o coletivo se ter familiarizado com o funcionamento das cooperativas integrais. Embora seja o modelo almejado, isso não o isenta de desafios. Apesar de ser a forma “verdadeiramente democrática e mais igualitária de fazer as coisas”, como descreve André, “às vezes a eficácia do processo de decisão não é a melhor”. É desafiante, mas também satisfatório.

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As complexidades de um projeto comunitário

André Pipa acredita que o trabalho comunitário se tornou um chavão, uma moda, mas a recetividade não é garantida, pela disrupção que representa na vida das pessoas. Por isso, sublinha o papel essencial de mediação das associações locais. Já Noah diz ter sentido maior facilidade em levar a cabo este tipo de projetos em Itália, por onde também já passou, enquanto em Portugal esbarrou numa maior desconfiança relativamente às instituições e ao outro. Para André, o caráter episódico de algumas iniciativas comunitárias também fomenta a desconfiança: “Sinto que parte da suspeição destas pessoas tem a ver com [o facto de os artistas] irem lá, ficarem lá três meses a fazer umas danças e jogos e depois irem embora e serem outra vez abandonados à sua sorte”, descreve.

Hugo Cruz conta com uma vasta experiência em práticas artísticas comunitárias, o tema do seu doutoramento. Já trabalhou com artistas profissionais e não profissionais em escolas, prisões ou bairros sociais. Identifica, em Portugal, um vínculo natural entre o trabalho comunitário e o contexto associativo, mas acredita que seria proveitoso aprofundar a relação entre o comunitário e o institucional, numa ideia de parceria público-comunitária, capaz de estimular a democracia participativa, sem com isso desresponsabilizar o Estado das suas obrigações. Na cultura, Hugo Cruz deixa um alerta: é preciso “abrir espaço para que estas experiências possam acontecer numa relação que não seja constantemente de financiador e de financiado”, de forma a prevenir o controlo e o enviesamento das práticas culturais e artísticas. A diversificação das fontes de financiamento assume um papel importante no acautelamento destes riscos. “Quanto maior a diversidade de fontes de financiamento, maior a possibilidade de reagir realmente ao que é o lugar, o que são as pessoas, o que são as dinâmicas das práticas dos projetos, para que não se esteja necessariamente encaixado a determinada linha de financiamento com determinados objetivos que às vezes acabam por ser um espartilho e não permitir um trabalho mais orgânico no lugar”, concretiza. E ainda que o trabalho comunitário encontre o seu meio natural nos contextos cooperativos e associativos, o modelo democratizado não resulta necessariamente numa linha de trabalho democratizada. Para Hugo Cruz, esse contexto ajuda, mas depois tudo depende da forma como o trabalho é desenvolvido, como as pessoas se organizam e tomam decisões. Não basta haver participação, é necessário que seja consequente.

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A partilha enquanto propósito

O trabalho de Hugo Cruz tem cruzado contextos sociais e artísticos, profissionais e não profissionais, arte com participação, e democracia. Mas criar comunidade a partir da cultura nem sempre tem tantas camadas ou um objetivo mais lato de aprofundar a cidadania e a democracia. Basta um espaço seguro e alguns objetivos em comum, como acontece no Silent Book Club, que a 31 de janeiro comemorou o seu segundo aniversário num edifício de coworking na zona ocidental do Porto.

Eszter Riga, que há três anos divide o tempo entre a Eslováquia natal, a Hungria e Portugal, distribui sorrisos e informações. É voluntária deste clube de leitura sem leituras predefinidas.

A ideia nasceu nos Estados Unidos, mas já se espalhou a mais de 60 países. O conceito é simples: trazer um livro ou uma revista e ler ininterruptamente durante uma hora. A interação é facultativa, prometendo-se respeito pelo espaço pessoal de cada um. Em Portugal, o projeto teve início em Cascais, e chegou aos ouvidos de Margarida Silva através de uma amiga, que a desafiou a experimentar o modelo no Porto. Abriu-se então o “capítulo” portuense desta experiência em que a partilha é possibilidade, mas não imposição. “Logo na primeira sessão ficámos muito surpreendidas porque achávamos que vinham só amigos”, lembra Margarida. Mas apareceram caras novas e o interesse da imprensa teve impacto: agora já há lista de espera. Por norma, cada sessão reúne 30 a 40 pessoas, mas em dia de aniversário, a lista de inscritos chegou a 97. Para acomodar tanta gente, o encontro deslocou-se para outra sala do LACS, o espaço com quem o Silent Book Club estabeleceu uma parceria há cerca de um ano e onde mantém sessões regulares. É também o local de trabalho de Benedita Garrett, que se juntou ao Silent Book Club desde a primeira sessão. Esta parceria resulta, segundo Benedita, da própria filosofia do espaço, que privilegia o espírito de comunidade e se envolve na dinamização de eventos.

Parar. Ler em silêncio. Prerrogativas pouco habituais num mundo acelerado com ecrãs omnipresentes. Tão pouco habituais que Margarida Silva acredita que “é preciso quase um convite externo para vir fazer isso”. Aceite o convite, os telemóveis ficam mesmo de lado, nota Benedita Garrett, que nunca vê ninguém interromper a leitura para lhes pegar. Como um ato de resistência à voragem dos dias.

O projeto é “voluntário e amador”, como as próprias facilitadoras descrevem, mas depois de Cascais e Porto, já se espalhou a Viseu, Bragança, Braga e Lisboa. Para além de propor um momento de paragem e introspeção ou socialização, o Silent Book Club cria também novas relações com o território. Apesar da regularidade das sessões no LACS, o clube continua permanentemente à procura de novos lugares, para “experimentar a vivência da cidade de várias maneiras”, como explica Margarida Silva. E isso tanto pode acontecer num café como no Parque da Cidade, onde o grupo já reuniu.

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Entre a cultura, o consumo e o entretenimento

Nada une o Silent Book Club ao World of Wine (WOW), o quarteirão cultural que desde 2020 ocupa 55 mil metros quadrados do cais de Vila Nova de Gaia. A não ser, talvez, novas formas de viver (parte) da cidade. A casa-mãe, The Fladgate Partnership, detém hotéis e caves do vinho do Porto, e o CEO, Adrian Bridge, tem ligações familiares ao comércio de vinho na região. É da reabilitação de antigos armazéns de vinho que nasce este conjunto de sete museus e 11 restaurantes, além de galerias comerciais. A ideia, segundo a relações-públicas Marlene Maia, era transformar o espaço em “algo sublime, contemporâneo, confortável, espetacular, mas mantendo a traça original dos edifícios para manter o carisma e a característica original do lugar”. Juntar o antigo e o contemporâneo era um objetivo, por isso os espaços antigos acolhem decoração moderna e experiências que se afastam decisivamente da museologia tradicional, como o Pink Palace, dedicado ao rosé, onde se pode mergulhar numa piscina de bolas e provar cinco tipos de rosé ao longo da visita. Já o Wine Experience é um museu que permite conhecer o universo vínico em grande profundidade, das castas à produção. Em complemento, há também um espaço dedicado à cortiça e outro ao chocolate, para além de um museu de exposições temporárias.

O responsável de marketing, Ricardo Almeida, encara a vertente cultural como algo importante na identidade deste espaço, mas uma cultura vista como entretenimento. Os próprios museus são apelidados de “experiências”, por terem uma forte componente sensorial, e mesmo os restaurantes procuram fugir a lógicas mais tradicionais. “Cada vez mais nos estamos a posicionar nessa parte do entretenimento, e mesmo do ponto de vista da cultura, num lado cool da cultura”, resume. Esta missão materializa-se em festivais gastronómicos e concertos de tributo a ABBA, Tina Turner ou Queen, em parceria com a rádio.

Quanto ao impacto local, Ricardo Almeida afasta riscos de descaracterização pela tradição do grupo, cuja presença no centro de Gaia, através do vinho, já conta com mais de 300 anos. O responsável vê no WOW a capacidade de trazer conteúdo a um destino antes preterido por turistas, que não encontravam motivos para cruzar a ponte. Não numa lógica de competição, mas de complementaridade: “Quando montamos o WOW, não é para criar uma alternativa em detrimento de, é para criar, aumentar a permanência [na região]”, clarifica. Depois, há a vertente económica: o WOW emprega cerca de 400 pessoas e pode ter três a quatro mil visitantes num dia normal (desde passagens a visitas mais demoradas).

Quando perguntamos ao sociólogo Carlos Fortuna se espaços deste tipo podem ser enquadrados numa vertente primordialmente cultural ou turística, a resposta acaba por ser transversal: os espaços cumprem “um objetivo de, através da cultura, esteticizar a cidade e fazer dela também um ponto de atração turística”. Não se trata de uma ambiguidade, antes de um “jogo duplo” de promoção de atividades artísticas e culturais que alavancam a promoção turística. E isso acontece, segundo o investigador em Culturas Urbanas, porque as cidades hoje vivem dessa sedução e esbatem fronteiras entre cidade antiga e moderna, histórica e cultural.

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Trazer a tradição para a modernidade

Quem passa junto à Torre dos Clérigos dificilmente deixará de notar o bulício e as cores da Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau. A iguaria é pastel de bacalhau com queijo da serra, confecionado ali mesmo na montra, para transeunte ver. O interior não deixa dúvidas sobre o que ali que pretende invocar: um retrato de Camilo na escadaria e um exemplar d’A Mensagem de Fernando Pessoa exposto no último piso, também povoado por livros alusivos à história de Portugal, como as edições sobre os descobrimentos e até o Diário da República.

História é a área de formação de António Quaresma, fundador do grupo O Valor do Tempo, que hoje detém não só a Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau, mas também o Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa (também com uma loja nos Clérigos), o Museu da Cerveja e a Joalharia do Carmo, entre outras marcas evocativas do património português. Mas tudo começou em Seia, terra natal do fundador, com o Museu do Pão, inaugurado em 2002, após a recolha do respetivo espólio. Mais tarde, António Quaresma haveria de decidir oferecer um lanche à equipa técnica do Sport Lisboa e Benfica. O acolhimento da sugestão acabaria por evoluir para o fornecimento de catering, que, com o Euro 2004, se alargaria a outros estádios além da Luz. Do universo futebolístico dá-se o salto para a baixa lisboeta, com a abertura do Museu da Cerveja no Terreiro do Paço. Museu porque, além de restaurante, conta a história da cerveja. “A base narrativa de todas as nossas marcas é sempre a história de Portugal”, explica Sónia Santiago, responsável de marketing e comunicação cultural do grupo. A par da história, vem a revitalização da cadeia de valor do queijo da Serra da Estrela ou das conservas da Murtosa. “Nós adoramos ir buscar produtos populares, como o pastel bacalhau, a sardinha, a filigrana, e o que se faz é dar uma roupagem bonita e levá-los à condição de ícone nacional e depois apresentá-los ao mundo como tal”, resume Sónia Santiago sobre os propósitos do grupo. Apesar da roupagem, Sónia não vê na atividade do grupo um contributo para a gentrificação dos lugares onde se insere: “Valorizamos a história de Portugal através das lojas e dos ambientes que criamos, mas estamos a criar valor para Portugal ao apresentá-lo de uma forma original e digna”, sublinha. Sónia acredita que o grupo pode contribuir para a qualificação da perceção que Portugal tem-nos de fora.

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Para Carlos Fortuna, a questão não passa por equilibrar a regeneração e a gentrificação, mas uma evolução que fez com que “o que foi tornado periférico, do ponto de vista espacial, histórico e temporal”, assuma agora uma centralidade simbólica. Para o professor, este movimento é “notável”, na medida em que praticamente inverte o modo como a sociedade se foi transformando. “O passado, o presente mistura-se com o futuro que não se pode bem vislumbrar. Não percebemos esse futuro incerto, mas já não queremos propriamente o passado”, resume o sociólogo.

Já a vertente da revitalização histórica e patrimonial, comum à narrativa destes dois espaços, obedece, para o sociólogo, mais “a interesses de mercado e da promoção das marcas”, e não propriamente a uma revigoração da monumentalidade da cidade, o que resulta do grau de atratividade que alguns destes lugares vazios ou “desativados” têm atualmente para os investidores. Para Carlos Fortuna, a ideia não é “monumentalizar os lugares, mas apelar a uma consciência coletiva para um lugar que ganhou uma centralidade renovada, não mais histórica, monumental, eventualmente mais artística, de diversão, de brincadeira, de encontro, de consumo também”. Tudo isto resulta na atualização do espaço antigo em prol de uma nova narrativa de cidade. E essa narrativa surge porque surgem novas necessidades, e uma maior abertura do público para a experiência e o inesperado. E apesar de todas as diferenças, nesse inesperado, nesse corte com a rotina, há mais um ponto de contacto entre um informal clube de leitura e um museu imersivo.

Publicado em 14 Maio, 2026 - 09:00
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