Arte e amor unem mulheres contra o preconceito

Inclusão

Arte e amor unem mulheres contra o preconceito

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Luís da Cruz, Fotografia 

Um grupo de mulheres ciganas atravessou a fronteira imaginária que divide a cidade de Faro, uma linha ferroviária, e juntou-se a outras mulheres com experiências de vida diferentes, mas a mesma vontade de quebrar preconceitos. Desta ligação nasceu um espetáculo sobre histórias de amor no feminino que termina com um momento de celebração coletiva.

O comboio aproxima-se perigosamente, mas Tânia Montes nem se mexe, indiferente aos apelos da mãe e da tia. Sentada no meio da linha ferroviária, jura a pés juntos que, se for preciso, morre ali mesmo. “Se não é com o Miguel, não é com nenhum!”, grita bem alto, revoltada com a família, que não a deixa casar. “Eu tinha 16 anos, mas sabia bem o que queria e estava disposta a morrer por ele, por isso só saí de lá quando me prometerem que podíamos ficar juntos”, conta à s_cities. “Pouco depois de deixar a linha, vuuuum, o comboio passa por mim a rasar, mas eu já era uma cigana feliz”, recorda 29 anos depois, os mesmos que leva de casada. “Hoje sei que foi uma loucura, mas valeu a pena”, garante.

Este testemunho real é uma das histórias que compõem o espetáculo “Carmen me sem!” (“Carmen sou eu!”, em romani português), apresentado pela associação DeVIR e pelo CAPa - Centro de Artes Performativas do Algarve. O trabalho junta mulheres ciganas da Horta da Areia - um bairro separado do resto de Faro pela linha de comboio -  a mulheres de outras zonas da cidade, recuperando uma ligação iniciada em 2021 no âmbito do programa Partis & Art for Change. Desta vez, o pretexto são os 150 anos da estreia de Carmen na ópera de Paris, protagonizada por uma cigana que vive a paixão de forma livre, mas acaba morta pelo homem que ama.

Inspiradas pelo libreto original, as participantes desta adaptação livre contam histórias de amor, verídicas e ficcionadas, através de leituras ao vivo, áudios e projeções em vídeo. Depois, junta-se a elas a bailarina espanhola Anabel Veloso para um solo de dança flamenca e, no final, tanto as mulheres da cidade, como jovens da Horta da Areia e até o público dançam e celebram o amor.

 

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O Bairro da Horta da Areia é descrito como um território de exclusão social e física, fisicamente separado do centro da cidade
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A história de Tânia Montes, que aconteceu há quase três décadas, é um dos relatos reais do espetáculo

Para José Laginha, diretor artístico do CAPa, o projeto “tem o poder de aproximar dois mundos totalmente diferentes, quebrando barreiras físicas e imaginárias, muitas vezes geradoras de tensões”. E uma dessas barreiras é, precisamente, a linha de caminhos de ferro que divide a “cidade rica” do “bairro pobre”, tão degrado e estigmatizado quanto fechado sobre si mesmo. “Por isso, quisemos abrir a cidade e a arte a quem costuma ficar à margem e criar um espetáculo que também evoca temas atuais, caso do femicídio”, acrescenta o criador e encenador.

Como explica David Fernandes, diretor técnico do Centro Comunitário Horta da Areia, “esta foi uma das raras vezes em que as mulheres da Horta da Areia deixaram de estar isoladas, totalmente centradas na família e no trabalho doméstico, para adquirirem alguma liberdade e poderem exprimir-se como pessoas, individualmente, mas também como grupo”. Graças a estes projetos “acabaram por criar relações fora do bairro, o que lhes deu a oportunidade de crescerem e de terem contacto com outras mulheres e realidades, desenvolvendo novas forma de ver o mundo”, explica o mediador social.

Além de denominador comum à criação artística, a temática do amor também foi um fator de afirmação das mulheres de etnia cigana, orgulhosas dos relatos de coragem que partilharam com as outras. “E, ao mesmo tempo, mostrou que todas têm as suas histórias de amor, alegrias e problemas, independentemente do lugar onde vivem”, diz-nos Ângela Santos, uma das moradoras da Horta da Areia. Ela própria é um exemplo de força de vontade, já que, em jovem, teve de fugir para o Porto porque se apaixonou por um “português”, como por lá chamam aos homens não ciganos. “Nós olhámos um para o outro e foi amor à primeira vista. O irmão dele dizia-lhe para não se meter com ciganos, mas ele garantia que íamos ficar juntos, mesmo contra a vontade da minha família. E ficámos!”, recorda. Só uns meses depois puderam voltar para o bairro, onde ainda hoje vivem com três filhos, a quem contam muitas vezes “esta aventura digna de um filme”.

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Projeto juntou mulheres da Horta da Areia e de outras partes da cidade
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Ângela Santos lembra o dia em que fugiu enamorada

Mudar perceções, derrubar preconceitos

A estreia do espetáculo, realizada em outubro do ano passado no Cineteatro Louletano, em Loulé, foi acompanhada pela inauguração de uma exposição com fotografias de mulheres da Horta da Areia, captadas por Luís da Cruz durante a primeira fase do projeto. A fotografia foi, de resto, um elemento essencial para desbloquear tensões, criar empatia e aproximar os dois grupos, que trocaram fotos entre si antes mesmo de se conhecerem pessoalmente. Além de retratos, também partilharam imagens das casas de cada uma, e foi aí que “algo de muito interessante aconteceu, porque desmontou perceções prévias que ficaram absolutamente goradas”, comenta José Laginha. “As mulheres da Horta da Areia achavam que as outras viviam em vivendas maravilhosas, com piscinas, e acabaram desiludidas, enquanto as da cidade não imaginavam que as barracas tivessem tudo muito arranjado, muito limpo, muito organizado”.

David Fernandes lembra ainda “o choque inicial das mulheres ciganas quando se aperceberam que há quem prefira ficar solteira depois dos 30 anos, ter uma carreira profissional e não depender de um homem, mas querer independência e entrar e sair de casa quando se apetece”. Sem julgarem as outras, isso levou-as a questionar as diferentes opções e “o que podia ser visto de uma forma negativa, acabou por resultar na conclusão de que essa forma de viver é igualmente válida, mesmo que não se revejam nela”. Ao mesmo tempo, também as mulheres não ciganas admitiram ter passado a encarar de forma diferente a realidade feminina na Horta da Areia, reconhecendo o peso da tradição, da cultura e da família em meios tão fechados como este.

Mas mais do que alterar perceções, a iniciativa da DeVIR (a associação responsável pelo CAPa) e do Centro Comunitário da Horta da Areia teve o condão de começar a derrubar barreiras antigas, acredita o responsável. “Os preconceitos existem de parte a parte, mas a única forma de os destruirmos é pormos as pessoas em contacto, estabelecemos pontes… e acreditarmos”, concretiza. Em Faro, nos dois lados da linha ferroviária, acredita-se cada vez mais que esse caminho passa pela arte, pela inclusão e por novos encontros improváveis.

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Espetáculo foi apresentado em Loulé e Faro
Publicado em 25 Maio, 2026 - 22:20
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