Guardiãs da Natureza: rede de mulheres cuida da terra e do saber

Natureza

Guardiãs da Natureza: rede de mulheres cuida da terra e do saber

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Letícia Martins, Luís Borges e João Garrinhas Fotografia 
 

Mais de 400 mulheres de 28 áreas protegidas do país unem-se à volta de um projeto de empreendedorismo apostado em valorizar ecossistemas, práticas ancestrais e comunidade: as Guardiãs da Natureza. Uma gestora cultural e uma agricultora que trocaram a cidade pelo campo contam como esta plataforma de cooperação cultiva sustentabilidade no território.

Paula Oliveira viveu largos anos na cidade, entre Lisboa e Torres Vedras, mas nunca esqueceu a fase da infância e adolescência que passou na aldeia de Cabril, em Montalegre. O apego à terra ficou-lhe para sempre, moldado por pessoas e lugares que cedo lhe ensinaram “a trabalhar os campos, a respeitar os outros e a partilhar”, mas também a dar mais valor aos “pequenos prazeres, como colher alimentos na horta”. O regresso dos pais à capital e, depois, uma profissão ligada às artes performativas, levaram-na de volta a vivências mais urbanas, mas quis o destino e a falta “de perspetivas de emprego” que regressasse novamente a Trás-os-Montes, já lá vão 12 anos. Desde então que a aldeia da avó e da mãe passou a ser também a dela, “um lugar de paz”, onde se sente “sintonizada com o mundo”.

Em Cabril fixou raízes e tornou-se “pau para toda a obra”, como gosta de referir, já que é “muita coisa ao mesmo tempo, como gestora cultural, agricultora, pastora, guia turística, tecedeira, formadora e muito mais”. Por lá lançou um projeto de ecoturismo e desenvolvimento sustentável, o Cabril Eco Rural, mas “foi uma luta” para conseguir fazer vingar a ideia, que começou por oferecer experiências turísticas e um alojamento local. “A comunidade não entendia como é que as pessoas de fora estavam dispostas a vir até cá, e ainda por cima pagar, para participar em atividades agrícolas ou serem pastores por um dia”, recorda Paula Oliveira, admitindo que, para alguns, “a ideia ainda é um bicho de sete cabeças”. A dificuldade em encontrar parceiros levou-a, então, a apostar no turismo criativo e em atividades mais diferenciadas, como a recriação do Ciclo da lã em Barroso, que lhe valeu a nomeação para os prémios New European Bauhaus, ou a Roca Viva, uma oficina têxtil dedicada à produção de fios e tecidos cem por cento orgânicos e artesanais.

Há cerca de cinco anos que também dinamiza a iniciativa “Cresce com a Floresta e a Floresta Cresce Contigo”, um projeto de voluntariado que desafia as crianças de Cabril a reflorestar uma antiga área ardida da freguesia. Foi com ela que se inscreveu nas Guardiãs da Natureza, logo que a rede passou a atuar na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês. “Sinto que tem tudo a ver comigo, porque também eu gosto de cuidar do meu canto, conservando lugares e saberes, sempre com a ideia de os perpetuar, ou seja, prolongando esse cuidado no tempo”, diz a agricultora e gestora cultural, de 49 anos.

Imagem
Imagem

Paula Oliveira é uma das mais de 400 mulheres que integram o grupo de Guardiãs da Natureza, uma plataforma de empreendedorismo e cooperação lançada em junho de 2023 no âmbito do Movimento das Mulheres pelo Clima, em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Desde essa altura que o objetivo passa por “envolver ativamente as mulheres na proteção e valorização dos territórios, em particular as áreas protegidas, mostrando que é possível aproveitar os recursos endógenos e empreender de forma sustentável”, revela Susana Viseu, fundadora e presidente da Business as Nature, a associação promotora da rede.

O projeto arrancou em oito áreas protegidas – Montesinho, Litoral Norte de Esposende, Dunas de São Jacinto, Paul de Arzila, Serra da Estrela, Estuário do Sado, Vale do Guadiana e Ria Formosa – e depois estendeu-se a mais sete: Douro Internacional, Peneda-Gerês, Serra da Lousã, Serra do Açor, Serra de Aire e Candeeiros, Estuário do Tejo e Tejo Internacional. Recentemente chegou a outras 13 zonas do país, como as serras da Gardunha e da Malcata, o Litoral Alentejano ou o Algarve. Além desta diversidade de territórios, 28 no total, revela também uma grande heterogeneidade de participantes e ofícios, já que a rede integra agricultoras, produtoras, pescadoras, pastoras, investigadoras, artesãs, gestoras culturais e muitas outras, com idades que vão dos 20 aos 80 anos, além de formações bastante distintas.

As guardiãs começam por se inscrever com uma ideia de negócio ou um projeto, participando num programa de capacitação relacionado com empreendedorismo e sustentabilidade. Já numa segunda fase entram num “bootcamp” e num programa de mentoria, que as prepara para uma apresentação final a parceiros ou investidores no chamado “Nature Impact Tank”, uma espécie de “Shark Tank”. Depois, são incentivadas a manter contactos e encontros entre si, “criando sinergias positivas, que contrariem o facto de estarem muito isoladas em territórios de baixa densidade”, explica Susana Viseu. “Já temos várias que estão a organizar eventos com a comunidade e a fazer coisas em conjunto, além de poderem trocar experiências e vender produtos e serviços umas às outras”, acrescenta a responsável. Paula Oliveira é um exemplo dessa partilha porque num dos primeiros encontros conheceu outra guardiã de Trás-os-Montes que “faz um pão fantástico com farinha de bolota” e logo começaram a trocar ideias e conhecimentos.

Para a gestora cultural, o facto desta rede ser exclusivamente feminina traz-lhe sentimentos mistos, mas reconhece que tem um importante papel simbólico e transformador. “Lamentavelmente, ainda fez sentido que existam projetos só para mulheres, sobretudo porque estamos a falar do mundo rural, ainda muito fechado e masculino. Era bom que não fosse necessário criar grupos minoritários, mas temos de continuar a travar essa luta. E projetos como estes servem para isso mesmo”, defende a fundadora da Cabril Eco Rural.

Imagem
Imagem

Uma guardiã com os pés na terra

Tal como Paula Oliveira, também Paula Serrano decidiu trocar a cidade pelo campo e as artes pelo trabalho agrícola. Faz agora nove anos que tanto ela como o marido sentiram “necessidade de mudar de vida” e oferecer ao filho “a oportunidade de crescer num ambiente rural, mais tranquilo”. Assim, deixaram o Porto e compraram um terreno nos arredores de Palmela, a que chamaram Quinta Maravilha. Nem um, nem outro tinham qualquer experiência em agricultura e quando começaram a trabalhar a terra encontraram um “solo muito cansado e subnutrido, além de pouco mais de dúzia de árvores à volta de casa, porque tudo o resto era um deserto”.

Ao longo dos anos, a paisagem foi sendo regenerada de acordo com os princípios da permacultura e da agroecologia, ganhando um sem-número de árvores e uma grande horta capaz de alimentar dezenas de pessoas. O que antes era um “sítio quase nu” tornou-se, aos poucos, num “pequeno paraíso”, cheio de vida e de surpresas. “Um dia, numa primavera, começámos a ouvir passarinhos a cantar e foi uma grande festa porque isso significava que a biodiversidade tinha voltado e que tudo fazia sentido”, recorda a agricultora à s_cities.

Em 2019, a Quinta Maravilha constituiu uma AMAP, ou seja, uma Associação para a Manutenção da Agricultura de Proximidade, que promove parcerias entre agricultores e consumidores, promovendo a agricultura local, sustentável e justa. Com ela, Paula e o marido Henrique passaram a distribuir cabazes alimentares pelos concelhos de Palmela, Setúbal e Barreiro, mas também criaram comunidade. “O mais importante de tudo é mesmo esse coletivo de pessoas, unidas e nutridas pelo alimento, mas também pela parte social e pela troca de experiências”, explica Paula Serrano. “Também por isso fazemos assembleias a cada temporada e encontros uma vez por mês, a que chamamos ajudadas, em que as pessoas que fazem parte da AMAP vêm pôr as mãos na terra, conviver e perceber o amor envolvido e o trabalho que dá fazer estes cabazes”, acrescenta. 

Os valores da AMAP Maravilha cruzam-se em inúmeros pontos com as Guardiãs da Natureza, por isso, foi sem surpresa que Paula Serrano se juntou à rede. “Percebi logo que fazia todo o sentido fazer parte do grupo, porque partilhamos os mesmo valores e objetivos. Por exemplo, já participei num encontro em Palmela que ajudou a reforçar conexões, além de alguns eventos online, sempre úteis para enriquecerem os nossos projetos”, recorda. O objetivo, sublinha Susana Viseu, da Business as Nature, “é mesmo criar laços de partilha e capacitar as mulheres, ao mesmo tempo que se dá a conhecer as histórias fantásticas de cada uma delas e dos seus produtos”. Atuando em rede, as guardiãs contribuem para a economia local, valorizam o território e ajudam a conservar as áreas protegidas do país. O resultado é um conjunto de boas práticas no feminino que já está a mudar as áreas protegidas do país.

Imagem
Imagem
Publicado em 10 Junho, 2026 - 21:37
Natureza
Sociedade
Sustentabilidade