Partilhar a cidade na "grande aceleração"

Opinião

Partilhar a cidade na "grande aceleração"

Viriato Soromenho Marques, Catedrático de Filosofia da Uni. Lisboa Texto
Shutterstock, Fotografia 

O historiador J. R. McNeill juntou uma dose colossal de dados empíricos para demonstrar a sua tese de que não só vivemos na época do Antropoceno, cuja génese coincidiria com o início da Revolução Industrial inglesa (circa 1750), como entrámos, a partir de 1950, numa fase de intensificação vertiginosa do metabolismo da humanidade com o Planeta, ou, se quisermos, com o ambiente natural, onde se alimentam as raízes da nossa história coletiva. A isso, designa o historiador como “Grande Aceleração”[i]. Não há nenhuma região planetária que escape ao crescendo e abissal impacto da ação antrópica, veiculada por uma economia que usa as políticas públicas (há muito capturadas por transversais “interesses instalados”) e as tecnociências como seus instrumentos e armas. Da litosfera à atmosfera, da biosfera à hidrosfera, da criosfera à noosfera (onde se gere a comunicação e as representações culturais), tudo está em turbulento processo de apropriação, privatização e exploração extrativista. Em todos esses domínios, onde cresce a entropia, a fenomenologia da vida urbana pode funcionar como metonímia, como indicador de perigo, tal como os canários nas minas de carvão no final do século XIX.

As cidades sempre foram espaços de partilha. A política nasceu nas cidades. O Maio de 68 é um exemplo europeu, ainda recente, da urbe como locus da esfera pública, incluindo a passagem do confronto verbal transborda para o protesto nas barricadas. Foi nas cidades que nasceu e se fortaleceu o debate e a comunhão de ideias e visões de futuro. O associativismo operário e estudantil, o cooperativismo empresarial. É nas cidades que se ergueram as escolas, universidades e museus, florescendo as vanguardas estéticas e a experimentação de estilos de vida alternativos. Oswald Spengler, há um século, distinguia as cidades do tempo da Cultura (uma fase histórica de vitalidade e crescimento) das cidades na época da Civilização (megalópoles exuberantes, mas revelando sinais de exaustão e esgotamento). Ele considerava os sintomas de deslaçamento e fragmentação das relações humanas nas grandes urbes como um sinal de inevitável declínio.

A transição ocorrida no software das cidades, nas já quase oito décadas da Grande Aceleração, pode ser designada como a passagem de modos diversos de vivência e partilha urbana, naquilo que designo como urbanidade analógica, para aquilo que poderemos denominar como simulacro da partilha, na recente urbanidade digital. A partilha analógica, a única que não é moeda falsa, implica um terroir histórico e cultural específico. Lembro-me bem do tempo em que as cidades europeias tinham todas um perfume e um timbre distintos. O turista sentia-se como um hóspede a pisar um terreno que não lhe pertencia e deveria ser respeitado. A partilha era uma experiência de comunhão na diferença. As relações eram entre pessoas distintas, sujeitos mediados pelo espaço e pelo tempo, pela distância e proximidade. Hoje, nas cidades digitais, os serviços são uma máscara de partilha. Por detrás do alojamento local, muitas vezes resultado da expropriação de moradores pobres vítima de gentrificação, ou na mobilidade em regime de TVDE, mais do que iniciativa localizada, o que encontramos é a pegada plana e uniforme deixada por plataformas digitais globais e rentistas. O protocolo higiénico do pagamento digital evita, tanto a locais como forasteiros, o risco do contacto com o outro. Em vez de partilha, celebramos a mesmidade.  A submissão das políticas públicas aos imperativos do capital sem rosto intensificou a especulação imobiliária. Criou refugiados urbanos na sua própria terra, inchando as periferias, ou forçando a coabitações obscenas em espaços reduzidos. A eficiência digital, que nos transforma a todos em “empresários de nós próprios” (numa feliz expressão de Byung-Chul Han), reduzindo a zero as interações pessoais e a deliberação coletiva, não inaugura nenhum individualismo prometedor. A digitalização crescente da sociedade, em especial das cidades é na verdade um processo de expropriação coletiva, dos espaços, dos dados pessoais, e no limite do próprio rendimento, que com o almejado monopólio da moeda digital nos pode ser roubado através de um clique, pela fraude ou por um poder despótico. Na vaga do capitalismo turbinado pela IA, assistimos ao naufrágio das políticas do bem comum, incapazes de alimentar a gula da acumulação. Se nada fizermos, desaguaremos num mundo em que, não só teremos sido despojados de tudo, como não teremos ninguém que possamos identificar como inimigo ou como potencial aliado. Nessa altura, viveremos num tempo que já não será o da história. Habitaremos em sítios sem alma de cidade.

[i] McNeill, J. R. & Peter Engelke, The Great Acceleration: An Environmental History of the Anthropocene since 1945. An Environmental History of the Anthropocene since 1945, Cambridge, MA, Harvard University Press, 2016.

Publicado em 14 Julho, 2026 - 09:00
Cidades