
Educação
Bando dos Gambozinos é “território libertado” para educar pela arte
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Bruno Alves, Débora Azevedo e Egídio Santos Fotografia
Há 50 anos que a educação, a liberdade e o crescimento se encontram numa associação e escola do Porto onde as artes são protagonistas. No Bando dos Gambozinos não há turmas — mas oficinas em grupo —, e nem sequer telemóveis ou computadores, mas papel, livros, poemas e muita música. Quem conhece esta casa diz que é um lugar onde cada um pode ser quem é.
"Pensar de pernas para o ar é uma grande maneira de pensar; com toda a gente a pensar como toda a gente, ninguém pensava nada diferente”. Longe de ser uma coincidência literária, o poema de Manuel António Pina, um dos fundadores do Bando dos Gambozinos, retrata bem o espírito inconformista e subversivo desta associação portuense que agora comemora meio século de atividade. A sede, a funcionar na Rua de Francos (Ramalde) é também morada de uma escola que desafia o ensino tradicional e oferece um novo paradigma, ao valorizar a expressão artística, como a música, o teatro, a dança ou a pintura. Missão: educar pela arte.
“Aqui, a arte não é um acréscimo à educação, mas a educação passa toda, necessariamente, pelas formas artísticas”, diz o diretor Rui Pereira, para quem esta escola é “um território libertado de regras e convenções” às quais os Gambozinos não se sentem obrigados. “Preferimos o crescimento, a cooperação em vez da competição, a responsabilidade e não a culpa, e fazer uma rutura com um conjunto de ideias que se estabelecem no senso comum, tal como sugere o poema do Manuel António Pina”, explica o responsável desta escola, apartidária, mas indissociável dos valores de Abril. “Os Gambozinos são filhos da Revolução e até já disseram que somos o ‘Colégio Alemão de Esquerda’, mas há alguma educação que não seja um ato profundamente político?”, pergunta o professor e ex-jornalista.
Ao contrário da escola regular, no modelo de ensino do Bando dos Gambozinos não há turmas, mas pequenos grupos de alunos que participam em oficinas sobre as mais diversas áreas. “Temos português e matemática, mas também damos muita importância à música, à expressão plástica, à dança criativa, ao xadrez e às ciências, que aqui são um pouco diferentes do chamado estudo do meio, porque envolvem uma certa compreensão de como funciona o mundo que nos rodeia”, revela Suzana Ralha, diretora e cofundadora da associação cultural. A estas oficinas, juntam-se muitas outras, como ballet clássico, teatro, natação, pintura ou filosofia, além das atividades comunitárias, em que os alunos, à vez, tratam do jardim, limpam as salas, fazem o pão ou põem a mesa.
Em todas, procura-se respeitar o ritmo das crianças e dos jovens, por isso os grupos nunca são estanques e funcionam num regime múltiplo de idades e aprendizagens conjuntas. “Por exemplo, uma criança podia estar, em teoria, naquilo a que chamaríamos o segundo ano, mas está a fazer alfabetização com o primeiro e, caso necessário, com acompanhamento individual. Já se for uma craque no xadrez, em vez de estar no grupo da idade dele, pertence ao grupo de cima”, explica Rui Pereira. Durante a manhã, o Bando dos Gambozinos recebe cerca de 30 alunos da escola equivalente ao jardim de infância e ao 1.º ciclo regular, enquanto à tarde enche-se de adolescentes e jovens de outras escolas e universidades que ali vão tocar ou dar continuidade à aprendizagem.
Para Suzana Ralha, o cruzamento entre as áreas artísticas, de expressão e de pensamento, tem ajudado ao crescimento dos alunos, porque “quando vão para o ensino público, estão mais robustos e reagem melhor à diversidade e à diferença”. A pedagoga e autora de um vasto repertório musical para a infância e juventude não acredita que as crianças “precisem de se habituar desde muito cedo a um certo tipo de rigidez e disciplina bacoca para estarem preparadas”. Como faz questão de dizer, “disciplina é a capacidade de adequarmos a nossa postura aquilo que nos é pedido no momento, ou seja, há alturas próprias para estamos tranquilos, em silêncio ou mais agitados, a trabalhar sozinhos ou coletivamente”. É por isso que, garante, o Bando dos Gambozinos valoriza tanto “a possibilidade de cada um ser quem é”.
Tecnologia para quê?
Enquanto o ensino público debate a proibição dos telemóveis e o impacto do digital na atenção e na aprendizagem, no Bando dos Gambozinos o tema não levanta discussão. Nesta escola não há — nem nunca houve — telemóveis, tablets ou computadores, seja em que idade for, porque, defendem os responsáveis, “a escola não serve para antecipar aprendizagens inevitáveis”. Como diz Suzana Ralha, “gastar o tempo mais precioso de um ser humano, que é a infância, a aprender a mexer em maquinetas que já serão outras quando ele precisar de as usar, é um desperdício brutal da capacidade de aprender”. Até porque, acrescenta Rui Pereira, “daqui a cinco anos, estes aparelhos já serão bastante diferentes daquilo que são hoje, ou seja, faz-nos lembrar a formação de engenheiros informáticos que, quando acabam o curso, já estão desatualizados”.
Ambos os diretores garantem que não se trata de nenhum tipo de tecnofobia, mas de procurar que “a virtualização da existência não tenha lugar em idades tão infantis”. O objetivo passa por tentar evitar alienações pelos ecrãs, o mais precocemente possível, algo que, sustentam, já é transversal a todas as idades. “Eu também sou professor universitário e a experiência com adultos e jovens da licenciatura ou do doutoramento mostra-me que há uma redução do tempo de concentração, cada vez mais dificuldade de expressão escrita e verbal, e um certo não conseguir, que advém de um mundo muitíssimo virtualizado, de que estas pessoas estão simultaneamente a ser usuários e vítimas”, defende Rui Pereira.
Pelo contrário, nesta casa valoriza-se muito o papel, o lápis e os livros. Não sendo uma obrigação, a leitura é incentivada e “funciona muito por contágio”, com as crianças a seguirem o exemplo dos mais velhos. Sempre que leem um livro, os alunos preenchem uma folha onde identificam não só o título, o autor, o ilustrador e a editora, mas também os motivos que o levam a recomendar aquela obra a alguém. Como diz Rui Pereira, “quando saem daqui qualquer um deles já leu dezenas e dezenas de livros”.
Neste modelo, a interação, a sociabilização e os jogos interpessoais são uma componente importante, embora a escola também estimule a introspeção e os momentos em que os alunos “podem estar consigo mesmos”, “o que não significa, necessariamente, estarem sozinhos”. É essa a ideia da chamada “hora do eremita”, um período de silêncio após o almoço, em que cada um “faz o que lhe der na gana, como brincar, ler ou pensar”, mas de forma individual. Dificilmente isso seria possível no ensino público regular, acredita Suzana Ralha, até porque, como acrescenta o colega, “os Gambozinos são uma coisa que só se consegue fazer numa pequeníssima escala”, que concretiza uma visão particular do mundo, “ao mesmo tempo livre e plural, mas também muito rigorosa”.
O “bichinho” dos Gambozinos que contagia o Porto
Quem passou pela associação diz que, nesta escola, há uma “forma muito própria de estar e de pensar” que “não se encontra noutro lugar do mundo”. É o caso de Pedro Costa, ex-aluno, agora pianista em Viena, na Áustria. Também ele recorda o espírito do poema “Pensar de Pernas para o Ar”, transformado por Suzana Ralha numa icónica composição musical que fez parte do álbum “O Beco dos Gambozinos”, editado em 1987. Tanto tempo depois, essa música continua a marcá-lo porque “os Gambozinos pensam de uma forma um bocadinho diferente, tentando fugir à escola tradicional e pensando na música, na arte e da convivência entre todos de um modo muito mais natural e orgânico”.
Entrou para o Bando com apenas quatro anos e por lá estudou durante mais de uma década, sempre com a convicção de que, ali, “cada um pode ser quem é”. Exemplos não lhe faltam: “lembro-me de estar toda a gente sentada no chão a aprender música, a cantar ou a escrever textos e eu a sentir-me mal porque nunca fui fantástico a escrever, como outros que, mais tarde, se tornariam escritores ou poetas. Mas a Suzana sempre me pôs à vontade dizendo 'tu consegues exprimir-te à tua maneira e tens outro tipo de valências que se calhar outros não têm'”.
Apesar de viver em Viena, fez questão de participar nos espetáculos de comemoração dos 50 anos de atividade do Bando dos Gambozinos, realizados no Teatro Rivoli (Porto) durante este mês de julho. Alguns colegas estrangeiros tentaram perceber o porquê de tanto interesse, mas não foi fácil explicar a essência “do bichinho Gambozino” que influencia muitas das suas características pessoais e profissionais, conta à s_cities. Até que “uma pessoa conhecida decidiu ir a um espetáculo e saiu de lá com lágrimas nos olhos a pensar: 'ok, agora eu entendo'”.
Pedro Costa foi um dos muitos músicos e cantores que participaram no “Concerto dos Amigos”, sob o lema “50 anos a fazer gente crescer", onde também marcaram presença nomes como Pedro Abrunhosa, Sérgio Godinho, Mão Morta, Amélia Muge, Miguel Bernat, Fausto Neves ou Luísa Barriga. Todos eles colaboraram e trabalharam ao longo das últimas décadas com o Bando dos Gambozinos, tal como tantas outras instituições culturais da cidade do Porto, com que a casa estabeleceu parcerias. Também por isso, Jorge Sobrado, vereador da cultura do município do Porto, fez questão de lembrar que o Bando dos Gambozinos é “muito mais do que uma escola de música” que junta várias gerações. Para o responsável “é uma permanência transformadora, muitas vezes discreta, de sensibilidade e imaginação, que juntou muitos dos grandes nomes da literatura, da poesia, da música e das artes visuais do Porto, e marcou e formou gerações e gerações de crianças e jovens, com uma cultura própria, não paternalista”.
As celebrações marcaram ainda o lançamento de cinco livros-música de autor e um novo disco, intitulado “Pelo Buraco da Fechadura”, que junta temas históricos do grupo. Este álbum apresenta 20 cantigas para os próximos 50 anos, lembrando a necessidade de “se construir numa nova maquineta, que funcione para o futuro”, como diz Rui Pereira. E logo Suzana Ralha complementa: “mas sempre com esperança, porque não é possível trabalhar com crianças sem acreditar que outro mundo é possível”.