
Entrevista
Álvaro Domingues: “Criou-se uma utopia de que podemos prever tudo"
Abel Coentrão, Texto
Igor Martins, Fotografia
Geógrafo e autor de uma obra multifacetada sobre a organização e a percepção do território e das paisagens portuguesas, Álvaro Domingues é um questionador de conceitos. Quando lhe explicamos que este número da revista S_cities se iria ocupar sobre a recente série de tempestades que devastou parte do país, interrompeu, para precisar os termos do que nos aconteceu: — “comboio, não era? De facto, foi o TGV.”
Numa outra entrevista, a propósito de um dos seus livros, eu descrevi-o como um geógrafo que apanha sempre o país com as calças na mão, desaprumado, impreparado para o retrato que, na verdade, o Álvaro anda sempre a tentar tirar, da berma da estrada. Depois deste inverno, é justo dizer-se que voltamos a ser apanhados com as calças na mão, ou isto é excessivo, porque seria sempre muito difícil estarmos preparados para o que quer que fosse, desta dimensão?
É mais isso. Aquilo a que hoje se chamam os eventos extremos apanham-nos sempre desprevenidos, não é? Depois do nosso primeiro contacto para esta entrevista, ocorreu-me ler um poema que o Voltaire fez por causa do terremoto de Lisboa. Esse era um daqueles acontecimentos que, de facto, não há possibilidade de prever. E tudo o que se pode pensar de medidas paliativas, como a célebre arquitetura com estrutura em gaiola pombalina, ora funciona, ora não funciona, dependendo do grau de intensidade, a duração, etc.. É próprio do risco, das situações de risco, elas estarem completamente fora das situações de normalidade. E fora também daquilo que possa ser previsível, porque a dinâmica do acontecimento em si é caótica. Nunca sabemos à partida quantas coisas é que vão ser afectadas e de que maneira. Veja-se, por exemplo, no comboio das tempestades, o facto de as torres de alta tensão não terem resistido. Elas tecnicamente até estavam preparadas para resistir a eventos fortíssimos, mas nós não temos memória de termos ventos que atingiram, se me recordo, os 200 km por hora.
Foram planeadas para outra intensidade que não é aquela.
Sim, e há a outra questão, que é o efeito dominó. Se uma torre é muito pressionada, os fios puxam a outra, uma rabanada de vento na outra, que já está pressionada… É próprio dos ambientes de catástrofe haver uma cadeia de acontecimentos, que não é propriamente uma cadeia simples de causa e efeito, porque está cheia de coisas inesperadas. É impossível de prever. Em vários sítios houve deslizamentos de terra, que depois levaram atrás de si os campos ou as estradas, ou o que fosse. Nós sabemos, quando se faz mapas de risco, que em determinadas vertentes há essa possibilidade, mas nem era o caso daquelas, que até são bastante suaves.
Independentemente da radicalidade dos factos que acontecem, o que eu acho relevante neste tema é o contexto em que as coisas são entendidas. Ou seja, a construção social da catástrofe, a construção política da catástrofe. Explicando de outra forma, há os factos, e eu posso fazer listas infindáveis de factos – quantas árvores rachadas, quantos quilómetros de estrada, quantos telhados pelo ar, etc — e depois há os assuntos. Agora fala-se nos modos de recepção da notícia, nas percepções, é disto que estamos a falar. E isto mudou radicalmente a partir da invenção do Antropoceno.
Refere-se ao Antropoceno, enquanto conceito [que exprime a influência do homem sobre os sistemas biofísicos]?
Estou a falar do conceito, sim, e do que ele muda na forma como olhamos para as coisas, e como falamos sobre elas. Antes disso, a nossa temporalidade, o quotidiano, a história, não tinham nada a ver com a história da Terra, que se media em milhões ou milhares de milhões de anos. Com a ideia do Antropoceno colidiram mundos que antes não se conheciam, ou seja, pode-se falar ao mesmo tempo de uma chuvada, do aquecimento da atmosfera, do desemprego…
E depois, há um outro efeito. No passado havia notícia de um tremor de terra na China, de um tufão não sei onde. Eram casos isolados. Tinham a sua história. Só que agora, como o mundo nos entra às catadupas, aquilo faz parte de uma mesma história. É aquilo que Ulrick Beck descreve no livro Sociedade de Risco Mundial: de repente, vive-se ameaçado por essa questão. E ao mesmo tempo, inventou-se, ou reinventou-se a natureza, como uma espécie de entidade metafísica que está zangada, tem um buraco no ozono, está aquecida, não sei o que mais. E a culpa é dos humanos. E portanto, os humanos têm que fazer coisas para ela se apaziguar.
Como antes se faziam às divindades... E a humanidade está a pagar pelos seus pecados, ao mesmo tempo.
Sim, pelas suas culpas, como Voltaire dizia no texto sobre o terramoto de Lisboa. Ele refere-se à providência. Não entendia como é que a providência castigava os humanos. Depois o Rousseau respondeu-lhe, disse: não, não, olha que se o terramoto fosse no deserto, provavelmente até nem tínhamos notícia disso. E portanto, para Rousseau não havia a questão da providência. Essa ideia de uma relação com o transcendental está bem presente nesta perspectiva de acharmos que o planeta, ou o sistema Terra, como os da biofísica dizem, é uma espécie de paraíso, que sempre esteve bem, e que os humanos sempre estiveram também muito bem, e até se davam com as feras. E agora, não. Agora é uma coisa completamente diferente. Eu acho que é mais este o contexto de vivência das coisas...
O século das luzes mata Deus e inventa a ciência, não é? E cria a ilusão de que o conhecimento ia resolver tudo. O Descartes dizia, conhecer para prever, e, portanto, podíamos prever tudo, ao mínimo pormenor. E criou-se essa utopia, que se tu formos organizado, sofisticado, cientificamente e tecnologicamente informado, etc., vamos conseguir prever isso tudo. E se não conseguimos prever? Somos desorganizados!
Instalou-se uma moral. Uma moral que é muito apoiada nessa ideia de que nós devíamos já ter um domínio total sobre a natureza e antecipar tudo isto.
Estamos a ser injustos perante a dimensão disto, se afirmarmos que somos um país que reage, que contabiliza os danos, mas parece menos capaz de prevenir? Não haveria, ainda assim, espaço para minimizar, de alguma forma, alguns dos riscos, olhando para o território?
Certas coisas, sim. Vejamos o caso da água no Mondego, onde conseguimos pôr a funcionar novamente o canal geral do sistema de rega. Desde o início, todo o Baixo Mondego é uma paisagem sintética. No século XVIII, na Real Academia das Ciências convidou-se um cientista de primeira água que foi medir a Serra da Estrela. Ele chegou a um número impressionante, de doze dígitos, que ocupava uma linha inteira. E dizia que as barrocas da Serra da Estrela, um terreno farelento, iriam abater com a erosão e que tudo aquilo viria pelo Mondego abaixo. E, portanto, havia que florestar tudo, proibir a agricultura, a montante de Coimbra, como se isto fosse possível. Mas o século das luzes, como sabemos, é muito radical. Tudo que a ciência dissesse, supostamente, seria para fazer. Então, datam dessa altura os primeiros caneiros.
O projeto moderno, do tempo do Estado Novo, do sistema de irrigação do Mondego, do controle de cheias, dos sedimentos, etc., não está completo. Falta a barragem de Girabolhos e faltam outros aparatos hidráulicos que não têm que ver propriamente com o curso do Mondego, mas com os seus afluentes. E, depois, não houve manutenção. À medida que o Estado vai ficando mais fluído, perde-se profissionais, afectando o funcionamento dos serviços. Ainda agora, a Ordem dos Engenheiros aconselhou que houvesse uma estrutura, por muito leve que seja, que só tivesse aquela responsabilidade.
A questão da rede elétrica é diferente. Temos que nos convencer que a maior parte das coisas é imprevisível. No sentido em que eu posso controlar um dos elementos do sistema, dois elementos do sistema, mas nunca sei quais são os outros. Como naquele trocadilho sobre os desconhecidos, há os desconhecidos conhecidos, e os desconhecidos desconhecidos.
Num artigo que escreveu, usava uma citação atribuída a Einstein, sobre a teoria e a prática. A teoria é quando sabemos tudo, mas nada funciona. A prática é quando tudo funciona, mas não sabemos porquê.
“Nós aqui juntamos teoria e prática. Nada funciona e não sabemos porquê”. Isso estava na porta da minha professora de biogeografia. Eu achava muita piada a esse dito, e ele faz todo sentido, dada a centralidade da ciência, que tem quase o mesmo estatuto que Deus. E depois convida-se com grande pompa o cientista, como quem convida o oráculo de Delfos, que nos vai dizer, faça-se isto e aquilo. Oh senhor professor, faça-se como? Nós não podemos pensar que a ciência dos laboratórios é a mesma que depois salta para os seus múltiplos usos, para os seus modos de existência na sociedade. Um físico que está a estudar radioatividade, não sabe se daquilo vai sair uma bomba atómica ou uma terapia para o cancro, por exemplo, não é?
Estivemos todos muito à espera de respostas. Até mesmo quando as coisas tinham acontecido, para as tentar entender. Às vezes dá a sensação de que o nosso quadro mental se urbanizou de tal forma que nós deixamos de compreender sequer estes fenómenos. Porque eles, na verdade, sempre existiram. O que nós estamos a discutir, mesmo do ponto de vista da crise climática, é a intensificação, o aumento de frequência.
Sabe que há um paradoxo? Quanto mais se conhece do ponto de vista científico, menos o cidadão comum sabe. Nós ainda somos do tempo em que o boletim meteorológico explicava minimamente as questões. Agora não. É uma bonecada. Portugal é um país tão pequeno, que está numa zona de transição climática e tem, na margem esquerda do Guadiana, um dos locais mais áridos da Europa e, nos Gerês, um dos mais húmidos. Ninguém acredita nisto. É uma distância mínima. E depois, como se não bastasse, como a circulação atmosférica dominante vem do Atlântico, basta uma colina, não é por si muito alta, basta que tenha mais de 200 metros e do outro lado já é uma coisa completamente diferente.
Portanto, nós temos aquele mosaico que Orlando Ribeiro descrevia, naquela frase muito bonita: Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Ele não falava só do clima, obviamente, falava também de outras questões culturais. Mas é ainda mais complexo que isso, porque há uma variação norte-sul e é uma variação litoral-interior consoante a morfologia. Basta ver o que é a região produtora do vinho do Porto. É um enclave mediterrâneo puro. Antes disso, há as serranias do Marão, um dos locais também onde chove mais e então basta atravessar o Marão e o clima muda completamente e, portanto, atrás da mudança climática vem toda a biogeografia.
Esse conhecimento, mesmo que ignorado, é acessível. Mas, voltando à pergunta anterior, questiono se o conforto em que nos colocamos, essa ilusão do controle, nos deixa mais vulneráveis.
Sim, sim. E depois, claro, temos que arranjar um bode expiatório. É o Governo, é porque não há planeamento, é o interior — eu, então, quando ouço falar do interior…
É, em muitos aspectos, um crítico dessa fé total no planeamento. Mas todos os anos ouvimos falar de falhas no planeamento para o Inverno e para os fogos do Verão.
O planeamento é um sistema de falhas. Planear quer dizer antever. Eu, para antever, tenho que saber quais são os termos da equação. Isso é que se perdeu. As coisas, obviamente, sempre evoluíram, mas eu ainda sou de uma altura em que elas tinham o seu tempo. E, portanto, fazíamos aqueles gráficos de que os tecnocratas gostam: este assunto era assim, depois de passar 20 anos está aqui, e agora, passados 20 anos, deve estar aqui. Ora, para isto se verificar, tínhamos que ter dinâmicas sociais constantes. Se muda a dinâmica social, aquilo não serve para nada.
Boaventura Sousa Santos disse um dia que Portugal era pós-moderno sem ter sido moderno. Ou seja, que toda aquela economia, cultura, etc., que vem do passado, do Portugal rural, que vivia, praticamente, num regime de subsistência pobre, veio quase até finais dos anos 60. E, depois, o dito processo de modernização não se produziu em Portugal, porque um milhão emigrou. O Algarve, por exemplo, passou diretamente de uma economia, de uma sociedade tradicional para o turismo. E o turismo é uma coisa muito curiosa porque usa e produz território. Contrariamente a outra economia, como produzir sapatos ou mobiliário, não, não, o turismo instala-se. É uma verdadeira máquina de produção de território.
A palavra rural continua a ser usada como se nada tivesse acontecido, quando tudo aquilo que caracteriza o rural já não existe. Então, nós vivemos um bocado num mundo fantasmagórico que não vive de imagens do real, vive de representações do real que estão fora de prazo. A maior parte delas foram todas inculcadas e inventadas durante o período salazarista. Aquela ideia da ruralidade neo romântica, do contacto com a natureza, dos produtos da terra, do trabalhador que canta, que conhece o céu, as estações. Tretas. Era uma agricultura profundamente pobre. E, então, essa fantasmagoria vive desse mundo idealizado, não percebeu, ou não quer perceber que isso não existe. E, portanto, não sabemos em que termos é que a realidade se organiza hoje em dia.
No planeamento, estamos a usar grelhas de pensamento e instrumentos que são desenhados para uma realidade que já desapareceu?
É uma coisa fácil de explicar. Eu sei que isto pode parecer uma frase comum, mas ela é verdadeira. Nós estamos, como nunca antes, numa velocidade tal de modificação das coisas e dos efeitos que essas coisas provocam que ficamos com ansiedade na investigação científica. Quando pensamos que temos uma visão mais ou menos clara, no outro dia já apareceu uma coisa que muda aquilo tudo. Como é que é possível planear, numa situação destas?
E pede-se-nos que pensemos a dez anos.
Agora, oito dias é arriscado. Basta o Trump dizer um disparate qualquer e, no dia a seguir, mudou tudo. Olhemos para a agricultura. Quando vamos comprar maçãs, provavelmente as maçãs são argentinas ou são da África do Sul, e, portanto, quando estamos a produzir qualquer coisa, seja morango, seja maçã, seja o que for, já não se trata da velha agricultura dos moranguinhos. Temos que fazer contas, porque estamos a competir com não sei quantos lugares do mundo. E, então, o modo de existência dessa agricultura já não depende exclusivamente, de facto, dos locais de produção. Já não sabemos. A sua existência tem que ver com a dinâmica global dos mercados.
Veja-se o caso do amendoal. A Califórnia ainda é o principal produtor de amêndoa do mundo, mas a situação complicou-se, por causa das dificuldades de acesso à água, e isso está a explicar o crescimento do amendoal no Alentejo. Nós ainda somos de uma geração que ainda distinguia o local do global, que associava uma coisa como a agricultura à terra, aos saberes dos que estavam ali, etc.. Isso acabou, esse mundo acabou, mas as novas premissas, as novas equações, digamos, ainda não são levadas em conta.
Ao mesmo tempo, isso cria dependências que, no momento de uma crise como a que passamos, faz com que não tenhamos ao pé de nós os recursos necessários para dar a volta, porque eles já vêm todos de longe, desde a comida a outras coisas, para a reconstrução.
Mas há muito tempo que é assim. Desde, pelo menos, a época colonial. A colonização e o regime da plantação associada à escravatura deslocou dos países consumidores para o outro lado do planeta uma série de coisas.
O que nos fez depender totalmente de tudo aquilo que podemos chamar de redes de transporte ou de comunicação.
Perdemos esse autarcismo, que eu acho que só existiu verdadeiramente no Neolítico e, mesmo assim, os arqueólogos discordam. Aqui há tempo estava a ler um livro sobre Jericó, em que se explicava que a obsidiana, que é um vidro vulcânico, que encontraram por lá tinha viajado de lugares a três mil quilómetros. O que quer dizer que há oito ou dez mil anos havia cadeias comerciais. Nós, portugueses, globalizamos imenso, sim, mas não começou aí.
Mas este inverno foi um teste às redes de transporte e comunicações. Num apanhado rápido, parece que falhou um pouco de quase tudo: Estradas, linhas férreas, redes de telemóvel, redes elétricas, redes d'água, já falamos um bocadinho delas, e até a rede de emergência, o Siresp. A questão é, nós vivemos num tempo de hiperconectividade. Parece que nem sabemos pensar completamente, se nos falta qualquer uma destas.
O [Manuel] Castells chamou-lhe a sociedade em rede.
Isto não aumenta ainda mais o nosso sentido de fragilidade e, usando outra palavra, de solidão?
Aumenta. Aumenta e é muito curioso. Nós fazemos parte de uma geração que tinha ideia que a tecnologia era sobre objetos: isto é uma garrafa, isto é uma mesa, isto é uma cadeira. E agora temos na mão um telemóvel, um tablet, que é ao mesmo tempo um objeto de uso pessoal, mas só funciona com satélites a orbitar o planeta. Estamos imersos numa sociedade, numa tecno-sociedade, onde a questão do aprofundamento do capitalismo global faz de qualquer coisa uma mercadoria, um produto, mas ao mesmo tempo cultiva-nos a ilusão de que nós somos indivíduos – essa é a base das nossas doutrinas liberais – que tomamos decisões e que somos autónomos, tretas completas, não é?
A internet e a eletricidade tornaram-se tão banais que nós só pensamos que essas coisas existem quando elas falham. Esta é a situação que explica muito bem o tal paradoxo. Nós pensamos que temos graus de autonomia, de sofisticação, de controlo das coisas cada vez maior. Mas eu ainda me lembro de uma conferência daquele autor que escreve sobre a velocidade, o Paul Virilio, em que ele dizia que quem inventou o comboio, sem saber, tinha inventado o descarrilamento. Ou seja, qualquer solução sociotécnica que depois tenha uma ampla cobertura social, arrasta consigo o efeito do descarrilamento.
E uma percepção ainda maior esse descarrilamento, porque nós deixamos de estar habituados, no fundo, a socorrer-nos até dos objetos mais simples.
Isso acontece porque a tecnologia é um serviço. A maior parte da tecnologia é uma coisa que está distribuída, não se sabe em que geografia, nem quantos atores é que mexem naquilo. Estamos no fim da cadeia como utilizadores, mas aquilo é completamente opaco. Veja-se agora as questões do domínio da inteligência artificial, ou da engenharia genética. A biologia já nem sequer trabalha com animais ou com plantas. Já só trabalha com coisas mínimas, constituintes da matéria. Se ouvimos um físico do CERN a falar de partículas, nem sabemos do que se trata. Perdemos essa relação táctil, sensorial e agora é tudo milagroso. Temos essa relação magificada com a tecnologia. Mas sabemos, perfeitamente, que ela é profundamente perversa.
Ainda insistindo nessa questão da fragilidade durante a tempestade, quando perdemos essa ligação ao mundo nós acabamos por nos socorrer do que está próximo. Isto também já foi assim quando o Estado estava ausente. Nestes dias, as comunidades locais foram muitas vezes a primeira rede de resposta. No meio de tantas lições a tirar, não deveríamos estar a investir mais neste lado das relações humanas, que foram muito afetadas pela tecnologização da nossa existência. Isto sem dar aqui desculpas ao Estado para não aparecer e fazer o seu trabalho.
Há uma coisa que para mim não tem explicação, que é o uso cada vez mais intensivo e genérico da palavra comunidade, a propósito de tudo. É uma palavra que, apesar de tudo, tem uma origem na antropologia. Lêmos, por exemplo, Jorge Dias, e percebemos o que era a construção de formas societais, de comunidade, com todos os aparatos possíveis. A gestão comum de recursos, gestão comum de uma ordem moral, tudo. E esquecemos-nos, muitas vezes, que a comunidade tem dois bicos. É capaz de uma profunda solidariedade e do seu contrário, porque a comunidade não é elástica. A comunidade não aceita a diferença, não aceita o outro. É também um sistema de controlo.
A ruptura entre a antropologia e a sociologia é que a sociologia se refere a formações sociais alargadas, abstratas, que toleram a diferença, o estrangeiro, etc., que nos põe aqui a falar, mesmo que a gente não se conheça.
E depois, a outra questão é que nós associávamos a vizinhança à comunidade. E, então, há muitos estudos, que eu acho que são um bocado românticos, que olham para um prédio, e porque as pessoas estão próximas e se chamam vizinhos, partem do princípio que aquela gente, todos os dias, conversa muito, como naqueles filmes da antiga senhora, do Pátio das Cantigas, não é?
E a sociedade não é isso. Dizia o François Ascher que o verdadeiro urbano é o que não conhece o vizinho. Conhece-o no sentido daquelas formas de sociabilidade que garantem, enfim, um espírito cívico, uma mínima educação, mas depois ouvimos aquelas notícias de que foi encontrada uma pessoa que já morreu há quatro dias no seu apartamento, sozinha.
Eu digo sempre, nas aulas, aos meus alunos: Atenção, comunidade é uma situação de chegada, não é uma situação de partida. Quer dizer, dependendo da situação, da dinâmica que foi criada no meio das circunstâncias, há um conjunto de pessoas que adere, que participa e assim por diante. E, portanto, comunidade é uma construção.
E hoje, nós não sabemos, de facto, o que é a vizinhança. É um mistério, porque ainda pensamos como se a proximidade física gerasse as outras proximidades todas, e isso não é verdade. E ao mesmo tempo, temos uma ilusão de certas coisas que exigem a própria presença, que exigem, pelo menos, dois humanos, um em frente ao outro, mas que são substituídas por coisas digitais.
Mas até isso falhou. Não havia redes sociais, e fomos obrigados a vir para a rua, onde os nossos problemas eram os problemas dos vizinhos.
As redes sociais laboram porque nós, quando não conhecemos bem as coisas, pensamos nelas como memórias de outras. E pensamos que as redes sociais são apenas uma adaptação das outras redes que tínhamos. E não tem nada a ver. Há sistemas que aumentam a opacidade, e aquilo que nós chamamos sociedade, é, de facto, uma coisa cada vez mais opaca. São cada vez mais comuns os mecanismos das pertenças múltiplas. E há uma coisa que está a tomar uma realidade algo problemática, que é a tendência para a tribalização. Ou seja, eu tenho uma imagem da sociedade que, em parte, se fundamenta nas pessoas que estão na minha rede social e, portanto, que concordam comigo. E se houver uma com quem não concordo, eu cancelo-a. Deixa de existir uma espécie de senso comum, de uma mínima partilha de coisas. E isto tem muito que ver com o populismo, com o pensar as coisas no curtíssimo prazo. Tem muito que ver com um assunto que numa tarde é de uma maneira, na manhã do dia seguinte é de outra. E com isto de encontrar respostas fáceis para coisas que são muito complexas também. Como estas de que falamos.
Depois da destruição, a primeira tentação é repor. Seja um muro, uma estrada, casas, acessos, o que seja. Mas repor pode significar, às vezes, reconstruir a vulnerabilidade. É-nos difícil recuar? Dizer não? Achamos que com os upgrades tecnológicos podemos fazer as mesmas coisas nos mesmos sítios, que eles vão resistir à próxima?
É difícil responder na generalidade. Esta história do fim do mundo é curiosa, porque o fim do mundo não é o apocalipse. O fim do mundo é servido em doses que se espalham num tempo que nós não sabemos qual é. Eu não sei qual é o ciclo, a cadência do acontecimento extremo, se é de 50 em 50 anos, se é de cem em cem. E isso até introduz no problema uma coisa positiva, que é a esperança. Pronto, eu vou fazer uns pequenos melhoramentos, vou fazer uns muros mais sólidos, uns postes de alta tensão com mais ferro, mas, em todo o caso, vamos pensar que, tão cedo, isto não acontece, até porque, tecnicamente, se chamam acontecimentos extremos. E nós vivemos em acontecimentos ditos normais, não numa lógica de acontecimentos extremos. E, portanto, fazemos o que podemos. Nós não somos uma economia próspera, como se sabe, não é? E, portanto, a decisão que alguém pode tomar para, enfim, tornar a sua casa mais resistente, um telhadinho mais sólido e tal, para algumas pessoas, isso é uma decisão que não traz problemas nenhuns, para outras é muito complicado.
Esta catástrofe também destapou as insuficiências da nossa organização político-administrativa. Tivemos de criar uma agência, para fazer a ponte entre municípios, comissões de coordenação, Estado Central.
A primeira coisa que me ocorreu, concordando com o que está a dizer, é que essa agência é uma resposta à rigidez do sistema. Nós temos um excesso de afastamento entre um Estado e uma administração hiper-concentrada, e como se não bastasse, esta está dividida em capelas. Só por um alinhamento astral é que uma decisão do Ministério da Saúde bate certo com uma outra decisão de outro ministério qualquer. E depois há um vazio, e há a proliferação das administrações municipais, que gerem, salvo erro, 10% do Orçamento Geral do Estado. Eu acho que é impossível manter esta máquina mais tempo, porque com muita facilidade dá desastre. Dá sobreposições de poder, dá tutelas que julgam que o território é delas e que não admitem que outras entrem, o que torna difícil a colaboração. Dá termos instituições que, às vezes, no terreno têm apenas antenas que são extensões, mas a decisão está algures lá atrás, não é? E, portanto, a agência é qualquer coisa que quer ignorar isto tudo e vai criar ali um dispositivo que tem a sua autonomia.
No meio da enxurrada voltou o debate sobre a regionalização. Mas o Álvaro não subscreveu, por exemplo, um artigo recente, assinado por autarcas e várias personalidades da academia, a pedir que ela fosse incluída na reforma do Estado.
Eu já tenho 66 anos. Vou perdendo a fé. Já não acredito. Eu tive a sorte de ter como professor o Valente Oliveira que eu acho que, na altura, era a única pessoa que tinha um doutoramento em formas de gestão regional, ordenamento do território, etc. Isto não existia cá em Portugal.
Ele explicava que nós temos que ter uma flexibilidade político-administrativa que seja capaz de se adaptar às situações. E encontrar soluções que sejam capazes de gerir essa flexibilidade. A tradição cá em Portugal, como em muitos outros sítios, é a de rigidificação.
É um geógrafo muito ocupado com a busca pelas representações, pelas formas que escolhemos, no fundo, para dizer ou para mostrar como vemos a paisagem, o território. Que representações é que se recebe de repente deste comboio de tempestades?
Num livro que se lê lindamente, François Hartog diz que o regime de historicidade em que nós estamos é o presentismo. E o presentismo não é nada favorável a esse tipo de raciocínio. Vive de respostas imediatas. E depois, qualquer coisa que acontece no ano a seguir é como se fosse, outra vez, um facto novo. Eu imagino que corpos técnicos que são chamados a pensar num determinado assunto sofrem imenso com isto. Vem o comboio de tempestades, que não tem nada a ver com incêndios e criou uma situação de presentismo para outra questão. A seguir, vem um deslizamento de terras, uma avalanche ou o que seja. Cada uma destas situações dá-nos uma lição de como as coisas acontecem. E depois nós ouvimos, mas não pensámos, e portanto é um típico caso de insucesso escolar.
Nós não estamos perante questões que se resolvam com somatórios de comportamentos individuais, como muitas vezes nos fazem crer. Não é verdade. Muito mais importante que isso são comportamentos coletivos. Estamos a falar de escalas territoriais imensas, estamos a falar de atores sociais, políticos, privados, públicos, os mais diversos. Essa é a parte difícil de mexer. É preciso chamar a atenção para a complexidade, para o contexto em que se discutem estas coisas. Uma coisa, por exemplo, que me impressionou um bocado no anúncio destas medidas do PTPR [Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, apresentado após as tempestades] foi ver que praticamente não havia prioridades. Era uma lista. E nós, claramente, temos que ter uma estratégia de decisão por prioridades. Porque sabemos que a complexidade e a extensão da questão é tão grande. Não temos capacidade, nem organizacional, nem financeira, para ir a todas.