
Entrevista
António Lopes: "As cidades têm de se preparar melhor para as ondas de calor"
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
IGOT, Fotografia
“Se conseguirmos reduzir o calor nas cidades teremos ganhos astronómicos”, não só ao nível da mortalidade e da saúde, mas também da economia, da produtividade e da água disponível nos solos. A garantia é de António Lopes, professor no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT), da Universidade de Lisboa, e investigador no ZEPHYRUS, o grupo de Investigação em Alterações Climáticas e Sistemas Ambientais da mesma universidade.
Para o especialista em climatologia urbana, é preciso apostar mais em estruturas verdes e áreas pedonais, criar uma rede eficaz de refúgios climáticos e combater “a moda” dos edifícios escuros e espelhados. Mas também alterar a lei que obriga ao encerramento de parques urbanos florestais durante ondas de calor.
Apesar de estarem mais alerta, os centros urbanos “têm de se preparar melhor” para os extremos térmicos e para as “três bombas de calor” que, alerta António Lopes, ameaçam cada vez mais as cidades.
Só este ano, já tivemos seis ondas de calor. Que impacto causaram no nosso país e, em particular, nas cidades?
O impacto das ondas de calor revela-se a vários níveis, a começar pela saúde, porque sabemos que a partir de um determinado limiar temos um aumento da mortalidade. Com calor extremo há sempre mortalidade, não vale a pena pensar que, desta vez, poderá não acontecer. Depois, há o impacto em tudo o resto, na economia, na saúde mental, na produção de trabalho, na produtividade e na escassez de água, porque há mais evaporação e, portanto, menos água disponível nos solos. Aliás, o Relatório do Clima na Europa em 2025 diz, exatamente, que um dos fatores do aumento do calor na Europa é a menor disponibilidade de água nos solos.
Nas cidades há, desde logo, uma combinação de dois fenómenos, as ondas de calor e as ilhas de calor — que são duas coisas distintas —, porque os centros urbanos absorvem o calor durante o dia e depois libertam-no à noite, ainda mais durante as noites tropicais. Isto agrava-se naquelas cidades mais densas, que têm pouca vegetação, cores muito escuras e fraca ventilação, pois se impedirmos o vento de passar, obviamente que o calor vai aumentar. Nas cidades, normalmente o perigo é maior porque as ondas de calor vêm agravar as ilhas de calor em alguns locais.
Ao longo da carreira tem alertado para os riscos daquilo a que chama “as três bombas de calor”: as ilhas de calor e as ondas de calor, mas também o aquecimento global. Porque são tão perigosas?
Porque há uma sobreposição de três efeitos que, sozinhos, terão uma determinada condição, mas, nas cidades, sobrepõem-se. Com o aquecimento global, as cidades e todos os outros espaços na Europa estão a aquecer mais do dobro do resto do planeta, isso é uma evidência. Depois, as cidades têm o tal fenómeno de ilha de calor que as faz aquecer mais do que os arredores ou, pelo menos, não arrefecer tanto. Portanto, temos aí a segunda bomba de calor. E, atenção que esta bomba é muito forte porque está relacionada com a mortalidade, sobretudo entre as pessoas mais vulneráveis.
A estas duas juntam-se uma terceira bomba, as ondas de calor, que estão a tornar-se mais frequentes, mais intensas, mais duradouras e espacialmente mais extensas. Ficamos assim com uma tripla “bomba” que a Humanidade vai ter de resolver. Ou vai ter de se adaptar, porque resolver mesmo está difícil.
As nossas cidades estão preparadas para enfrentar o calor extremo e as ondas de calor?
Isso é uma daquelas perguntas que têm várias alíneas como resposta. Nós temos de estar preparados, mas a verdade é que nem sempre estamos. Com a grande onda de calor de 2003 parece que aprendemos um pouco ou, por exemplo, Paris aprendeu, porque o impacte na mortalidade durante as ondas de calor tem sido menor na capital francesa. Portanto, penso que as cidades, no seu todo, estão mais alerta para o calor, embora também haja muitas áreas em que, depois, isso não se verifica na prática. Digamos que as cidades, em parte, estão preparadas, mas têm de se preparar melhor para as ondas de calor.
É aí que entram as soluções. Quando há uma incidência de calor muito elevado, é preciso proteger as infraestruturas com ar condicionado, nos hospitais, nas escolas, nos sítios onde realmente as pessoas se concentram e onde pode haver maior vulnerabilidade ao calor. O problema é que, enquanto arrefecemos os espaços interiores, acabamos por aquecer os espaços exteriores porque o ar condicionado fornece calor para as ruas. Ou seja, vai aumentar a temperatura nas cidades. Temos, portanto, de encontrar outro tipo de soluções.
E quais são elas? Qual é a melhor forma de arrefecer as cidades?
Hoje advogamos muito a utilização de Soluções Baseadas na Natureza. Parece-me que é uma das formas de podermos transformar a cidade. Mas não se trata apenas de plantar árvores ou criar relvados, é muito mais que isso. Por exemplo, nós fizemos vários estudos no jardim da Gulbenkian, em Lisboa, onde realmente a temperatura é mais baixa. Mas depois, ali nas ruas à volta que não têm árvores, a temperatura aumenta muito ou, pelo menos, não baixa tanto.
Além disso, tem de haver planeamento. Isso é fundamental para estruturar os tais corredores verdes de que o arquiteto Ribeiro Teles falava há muitos anos. E eles têm de estar interconectados, as estruturas verdes têm de ser uma rede dentro da cidade, com a cidade, para a cidade. Além das Soluções Baseadas na Natureza, é preciso pensar noutro conjunto de medidas, relacionadas com superfícies mais permeáveis, que não refletem o calor durante o dia e não emitem durante a noite. E há ainda um terceiro conjunto sobre os edifícios, porque há novas estruturas e materiais que se podem aplicar para o edificado não aquecer tanto. Isto para além de medidas muito simples que nós conhecemos do mundo mediterrâneo, como as portadas, as janelas tapadas ou os estores.
Fala-se cada vez mais de refúgios climáticos, mas parte da população ainda não sabe onde estão ou mesmo do que se trata. Como explicar a sua importância às pessoas?
A primeira coisa é fazer o mapeamento desses refúgios, que é a parte mais fácil, porque, na verdade, é olhar para os espaços verdes que temos, projetar outros e comunicar às pessoas. Lisboa, aliás, já fez isso, tal como outras cidades portuguesas. Também é importante haver uma monitorização dos espaços verdes, porque podem estar cartografados e, ainda assim, levantar muitos problemas.
Por exemplo, um espaço verde pode estar realmente, mais fresco, mas se houver uma onda de calor com 40 graus, e ele estiver com 38, isso, para mim já não é nada bom. Outros casos: as igrejas costumam ser bons refúgios, mas há alturas em que estão fechadas. E os centros comerciais também são climatizados, mas permitirão que as pessoas estejam lá só para se refrescar? Além disso, como levar as pessoas para os refúgios? Em Barcelona, as mais vulneráveis não vão para os parques, porque precisam de ter acompanhamento, se calhar até médico. E depois, quem é responsável pelo refúgio? Há que pensar em tudo isso e muito mais, tem de haver acordo entre todos e, sobretudo, deve haver um plano.
Na última onda de calor, a Câmara de Lisboa encerrou 13 espaços florestais, devido ao risco de incêndio, mas alguns deles até constam da lista de refúgios climáticos da cidade. O que lhe parece esta medida?
A gestão dos parques urbanos exige uma atualização da legislação que permita reduzir eficazmente o risco de incêndio, preservando simultaneamente a cobertura arbórea, o conforto térmico e o valor social destes espaços. Até porque o risco de incêndio real é mínimo em alguns desses locais que foram fechados. Ou seja, não se deve permitir ir para sítios onde o risco é grande, mas os outros não devem ter restrições. Portanto, o melhor é adaptar a legislação a estes tempos que estamos a viver, às tais bombas de calor que nos obrigam a precaver e a adaptar cada vez mais.
Além dos refúgios climáticos, também faz sentido criar salas de arrefecimento, como alguns especialistas têm defendido?
O verdadeiro desafio reside em saber quem financiará estas intervenções, pois as medidas de adaptação representam custos significativos". E aqui entra o tema da pobreza energética, visto que não conseguimos pagar esses sistemas, porque não somos uma economia assim tão forte. A verdade é que a maior parte dos edifícios deviam ser construídos com regras mais apertadas de ventilação, por exemplo, a chamada arquitetura bioclimática.
Os nossos edifícios não estão a ser desenhados e preparados para suportar extremos térmicos?
Temos muita regulamentação para edifícios a partir dos anos 90, sobretudo. O problema é que uma grande parte dos edifícios das nossas cidades são anteriores e, esses, não foram construídos com essa preocupação. Na prática, temos edifícios que durante o inverno são muito frios e durante o verão são muito quentes. Portanto, aí é preciso tomar medidas pessoais, sobretudo de arrefecimento, como dispositivos de circulação de ar e outras soluções de arrefecimento. Resumindo, é fundamental fazer uma renovação do edificado, mas uma renovação inteligente que não seja só estética.
Em Lisboa, por exemplo, começam a aparecer edifícios cada vez mais escuros, em contraste com o histórico da cidade, que sempre foi muito clara…
Temos visto muito disso em Lisboa e parece que é uma moda. De facto, nota-se essa tendência de fazer edifícios escuros ou aumentar outros, antigos, com superfícies escuras nos últimos pisos. Um estudo muito interessante que se fez em Paris, durante a onda de calor de 2003, mostrou que, nos últimos andares, mais expostos à radiação solar, o perigo de mortalidade duplicava. Temos de nos lembrar que os últimos andares não podem ser revestidos com superfícies negras, porque isso aumenta muito a necessidade de arrefecimento e também o calor para as ruas, a que costumamos chamar de canyons urbanos.
E depois há outra coisa que entrou muito na moda e também se deve combater: os envidraçados, que chegaram do Norte da Europa. No Alentejo ninguém vai pôr um edifício com envidraçados porque sabe que não consegue viver lá dentro ou, então, deve ter muito dinheiro para o ar condicionado. E em Lisboa também conhecemos muitos casos desses. Resumindo, temos de voltar a desenhar os edifícios com o clima e não contra ele, seja por causa do calor nas ruas, mas também para diminuir os consumos de energia.
Olhando para um futuro próximo, considera que vamos sofrer cada vez mais com os efeitos do calor e das temperaturas extremas?
Não há dúvida nenhuma! Os modelos que utilizamos hoje em dia são muito robustos e as projeções climáticas estão mais do que demonstradas. Tudo indica até que se vão agravar. Isso tem-se verificado nos últimos 10 anos, em que houve um agravamento global, sobretudo aqui na Europa e no Ártico. Portanto, com grande grau de certeza, sabemos que isto vai aumentar.
E poderá aumentar mais ainda nas cidades?
Essa é outra questão interessante. Porque quando medimos este efeito de ilha de calor, olhamos para a temperatura que há em todos os locais da cidade, em comparação com uma estação fora da cidade. Num estudo que envolveu 17 cidades europeias parece estar a emergir um padrão: enquanto no sul da Europa não há este agravamento entre o centro da cidade e o exterior da cidade, no norte da Europa, parece que ele é efetivo. Ou seja, o efeito de calor no futuro poderá manter-se nas cidades do sul da Europa com os níveis a que está hoje, que é à volta de 2, 3 graus, mas no norte poderá aumentar.
Algumas teorias explicam isso com os níveis de calor antrópico [energia térmica gerada diretamente pelas atividades humanas], porque, por exemplo, nós aqui no inverno não usamos tanto aquecimento como os países do norte da Europa. Essa componente do calor antrópico é muito importante nas cidades porque elas produzem mais emissões e mais energia para aquecer o edificado e depois essa energia terá de sair para as ruas.
Nesse sentido, criar zonas de emissões reduzidas e áreas pedonais tem um impacto direto na descida da temperatura das cidades ou ajuda, sobretudo, a melhorar a qualidade do ar?
Eu diria que tem os dois efeitos. Os edifícios mantêm-se lá, mas se retirarmos carros e criarmos zonas mais pedonais, mais verdes e com mais transporte público, vamos reduzir esta parte do calor antrópico. No fundo, estamos a melhorar qualquer sistema urbano, duplamente. É uma questão de querermos mesmo mudar, apesar de haver ainda muita resistência.
Há um estudo muito interessante do Instituto de Saúde Global de Barcelona sobre quanto é que melhoraríamos se substituíssemos as grandes superfícies com betão por superfícies naturalizadas, sobretudo com árvores. E os ganhos são da ordem de mais de 10% na mortalidade. Se conseguirmos isso, ao reduzirmos o calor nas cidades, então teremos ganhos astronómicos, e a sociedade tem de pensar nestes números. Se nós transformarmos as cidades com este objetivo, ganhamos todos. É a nossa qualidade de vida que está em jogo.