Contrariar o despovoamento: aldeia no Alentejo é ponto de encontro do mundo

Sociedade

Contrariar o despovoamento: aldeia no Alentejo é ponto de encontro do mundo

Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Rafael Esteves, Fotografia 

A aldeia de São Martinho das Amoreiras, no concelho de Odemira, inverteu o declínio populacional graças à chegada de muitos estrangeiros, mais de um terço dos atuais residentes na freguesia. Artistas, membros de uma comunidade espiritual e até um chef japonês são alguns dos novos povoadores que abriram negócios, agitaram a vida cultural e ajudaram a manter a escola primária aberta.

Osaka, Londres, Roma e… São Martinho das Amoreiras. Depois de correr o mundo e viver em grandes cidades, o japonês Gautam Higashino encontrou a tranquilidade que procurava nesta aldeia de paisagens serranas e gentes abertas ao desconhecido. Descobriu-a por acaso, enquanto seguia os passos de Mooji, um guru jamaicano que fundou uma comunidade espiritual na freguesia – o Monte Sahaja – e, tal como ele, acabou apaixonado pela região de Odemira. Ali encontrou “uma vibração especial” que, inesperadamente, lhe fez lembrar a aldeia da avó materna, no sul do Japão. E logo quis fazer do Baixo Alentejo a sua casa.

Mudou-se em definitivo com a família há oito anos, sem falar uma única palavra de português e com receio do choque cultural e da integração, mesmo sabendo que muitos outros estrangeiros estavam a fixar-se por lá. Quase todos com a mesma dúvida: “como irão reagir os locais a esta pequena invasão de pessoas tão diferentes?”. A resposta não tardou a chegar. “Lembro-me de um dos primeiros dias, em que as minhas filhas brincavam com outros miúdos na rua e faziam muito barulho. Fui pedir desculpa pela confusão a uma senhora idosa, mas ela sorriu e disse que aquele era um sinal de vida, uma vida que a terra tinha perdido e começava a regressar”, recorda Gautam.

O resto da aldeia reagiu da mesma forma à chegada dos “forasteiros” a esta freguesia, a única do interior do concelho de Odemira a ganhar população nos últimos anos, agora ligeiramente acima das mil pessoas. Destas, mais de um terço são estrangeiras, oriundas de mais de 50 países, como França, Noruega, Estados Unidos, Colômbia, Austrália ou Japão. Também graças a elas, São Martinho das Amoreiras entrou num “contraciclo positivo” que começou por beneficiar a economia local, diz o presidente da Junta de Freguesia, João Pedro Vilhena, porque “compraram e reconstruíram casas na aldeia, contrariaram a ideia de que os montes deixariam de ser habitados e trouxeram uma nova dinâmica ao comércio local”. Algumas criaram o próprio negócio, como Gautam, que abriu um restaurante japonês na aldeia, o Sazanami, embora muitos trabalhem remotamente nas mais diversas profissões. Ao mesmo tempo, as famílias com crianças ajudaram a manter aberta a escola primária, hoje cheia de vida e diversidade. “Se não fossem elas e as novas matrículas que surgiram, provavelmente a escola já teria fechado e o ensino acabaria por aqui”, lembra o autarca.

Mas o que distingue São Martinho das Amoreiras de alguns locais do litoral alentejano onde a integração de migrantes tem levantado mais desafios? Além da “própria natureza das pessoas, que gostam de acolher”, João Pedro Vilhena acredita que “neste caso, a adaptação é muito mais fácil porque quem chega não está de passagem, em trabalhos temporários na agricultura ou com a ideia de ir para outros países, mas vem com o intuito de se fixar no território e aproveitar esta qualidade de vida”. O único senão, admite, é mesmo a subida dos preços da habitação e dos terrenos, porque “quando há procura e não há oferta, surge sempre um crescimento de valor que desagrada às pessoas”. Sinal dos tempos, onde antes havia casas e montes ao abandono, agora quer-se construir, reconstruir e recomeçar histórias de vida.

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Depois de viver em cidades como Osaka, Londres e Roma, o japonês Gautam Higashino apaixonou-se por São Martinho das Amoreiras e ali abriu o restaurante Sazanami
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O presidente da Junta de Freguesia, João Pedro Vilhena, diz que a aldeia inverteu o declínio populacional graças à fixação de muitos estrangeiros, mais de um terço dos atuais habitantes

Criar pontes através da arte

Além de inverter o isolamento e o declínio populacional, a chegada de estrangeiros a São Martinho também mudou a vida cultural da aldeia, hoje mais dinâmica do que nunca. As artes e a cultura tornaram-se um dos principais motores de integração e aproximação entre comunidades, como mostra o surgimento de uma nova associação, a Amoreiras Info, fundada pelo francês Julien Aigret, em colaboração com vários moradores locais. “Desde o primeiro dia que o objetivo é quebrar muros e criar pontes, e isso consegue-se reunindo as pessoas, quebrando o gelo e gerando conexões. Não é por acaso que a nossa sede fica na Casa do Povo, um espaço emblemático que, a par de diferentes iniciativas, funciona como uma espécie de pulmão cultural”, diz este antigo funcionário da televisão pública francesa.

Tal como Gautam, também ele descobriu a aldeia através da comunidade de Mooji, já depois de ter morado em França, na Índia e na Tailândia. Mas foi em São Martinho das Amoreiras que decidiu criar raízes, já lá vão 10 anos, em grande parte graças às pessoas que por lá encontrou. “Aparentemente, parece que vivem num mundo fechado, do campo e da caça, e o verniz demora um pouco a quebrar. Mas quando explode, revela que esta gente tem uma simplicidade desarmante, uma abertura, uma capacidade de ajudar o outro e de estar aberto à diferença, além de uma grande vontade de fazer a festa”, conta Julien à s_cities.

Isso torna-se particularmente evidente nos momentos em que todos se juntam, como o mercado mensal ou o Amoreiras Fest, um festival anual de música, arte e comunidade promovido pela Amoreiras Info. Nessa altura, estrangeiros e locais colaboram na organização e voluntariam-se para receber visitantes e bandas com o mesmo propósito: “celebrar o encontro, a criação e a construção comum”. Alguns até sobem ao palco, como Gautam, que, na última edição, atuou em dueto com a filha Anandi, ou o cantor inglês Sam Garrett, um dos muitos artistas a residir em São Martinho das Amoreiras. A mesma associação também está a dinamizar dois grupos de teatro, o TED - Teatro e Estúdio Dinâmico, com 14 crianças de 17 nacionalidades, e o Alento - Teatro Comunitário, este destinado a adultos. Em comum, além do encenador Marco Quintino, têm a vontade de unir pessoas de todas as origens à volta da cultura, fazendo dela uma ferramenta de integração. Ainda assim, não deixam de funcionar como “um espelho, entre o real e o imaginário, que ajuda a expiar medos e confrontar opiniões”, garante o presidente da associação. Por exemplo, o próximo espetáculo do Alento, que se chama “Calma Calma”, vai apresentar “uma versão alternativa de São Martinho das Amoreiras, em jeito de catarse, porque é uma peça que fala de nós e de divisões imaginárias, com muito espaço para rirmos de nós próprios”, revela Julien, que trocou a vida em Paris por um monte alentejano, onde agora prepara a abertura de um turismo rural.

Vizinho da Amoreiras Info, também o Centro de Valorização da Viola Campaniça, com sede na aldeia, procura fazer chegar a música e a tradição alentejana à comunidade estrangeira, em particular aos mais novos. Nuno Duarte, dirigente da associação São Martinho Terra e Gente (responsável pela gestão do Centro) lembra a parceria com a escola primária que “permite aos alunos aprenderem a tocar este instrumento durante as AECs - (Atividades de Enriquecimento Curricular) e deixa sempre os meninos estrangeiros, tal como os outros, muito curiosos e motivados”. Um interesse que já começa a alastrar aos adultos, acrescenta o presidente da junta, João Pedro Vilhena: “por exemplo, tivemos algumas festas na freguesia em que um grupo de estrangeiros se apresentou a cantar em alentejano, como se fosse um grupo coral dos nossos”. E isso, conclui, “só pode demonstrar uma vontade de integração na vivência e nos costumes locais”.

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A chegada de muitas famílias com crianças ajudou a manter a escola primária e deu origem a um grupo de teatro, fundado pelo francês Julien Aigret, que reúne crianças de 17 nacionalidades

Prontos para uma “nova maneira de futuro”

Nem só de estrangeiros se faz esta nova vida de São Martinho das Amoreiras. À aldeia também chegam muitos portugueses, uns, filhos da terra que decidiram voltar, outros, gente da cidade em busca de um ritmo de vida mais calmo. É o caso do Pedro Candeias, que, depois de muito procurar, encontrou novos propósitos na pequena localidade alentejana. “Apesar de ter vivido muitos anos na capital, a cidade nunca foi a minha escolha de coração e havia sempre qualquer coisa que não batia certo. Depois, tudo mudou quando tive a oportunidade de vir para cá”, revela o lisboeta, de 54 anos. Formado em engenharia, não esconde que a vida no interior traz desafios, “porque há menos trabalho, menos coisas para fazer e menos atrações, como cinemas ou centros comerciais”, mas garante que, em troca, oferece algo mais importante: “uma profundidade no relacionamento que faz toda a diferença”.

Nesta freguesia do Baixo Alentejo gosta particularmente “da maneira de ser das pessoas e da forma de estar, mais ligada à terra, às raízes, à cultura, à proximidade com os vizinhos e à tal valorização do relacionamento entre todos”. Por sentir que o mesmo acontece com a comunidade estrangeira, diz que tem procurado “fazer essa ligação entre os dois lados, para que se misturem e conheçam mutuamente, e não se criem nichos ou pequenas bolhas que não ajudem”. Garante que, “em geral, todos se dão bem” e acrescenta que, quem já morava na aldeia sabe valorizar a nova realidade, até porque “antes, a povoação estava um bocadinho morta, sem gente jovem e sem novos casais” e, agora “é um exemplo” para outras aldeias do país à procura de futuro. “Acredito que há um grande espaço interior da aldeia, de todos, para a mudança, para o querer ser diferente e para a partilha infinita”, remata a conversa.

Tanto Gautam Higashino como Julien Aigret dizem sentir o mesmo. O japonês apegou-se de tal forma que, pelo menos nos próximos tempos, não pensa trocar a aldeia por nenhum lugar do mundo. Considera ser “incrível que um sítio tão pequeno junta gente de tantos lugares diferentes” e está especialmente grato por este “proporcionar às filhas a possibilidade de crescerem num ambiente seguro, harmonioso e com qualidade de vida”. Uma realidade bem diferente das agitadas Londres e Roma que a família deixou quando elas eram pequenas. Já o francês, acredita que o melhor ainda está para vir porque “em São Martinho está tudo pronto para essa nova maneira de funcionar no futuro, tão assente na interculturalidade e na diversidade”. Em conversa com a s_cities, afirma que “esta terra está cheia de húmus humano, com sementes que podem demorar um pouco a crescer”, mas, depois, “lembram os sobreiros do Alentejo”. Afinal, faz questão de lembrar, “tal como eles, as pessoas daqui, também são fortes, duros, trazem sombra e amparo. Quem não gosta de ter vizinhos assim?”

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O lisboeta Pedro Candeias trocou a capital por São Martinho das Amoreiras quando decidiu juntar-se a Mooji, o guru jamaicano que fundou uma comunidade espiritual na freguesia
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O mercado mensal da aldeia, realizado sempre no primeiro sábado de cada mês, é o espelho da diversidade local ao reunir vendedores e visitantes de dezenas de países
Publicado em 19 Agosto, 2026 - 08:27
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