
Inovação
Comprar frutas e legumes pela internet pode salvar o comércio local
Ana Mota, Texto
Ana Mota, Fotografia
À distância de um clique, já é possível comprar os produtos locais que são vendidos em banca no mercado de Alcanena. Nas Caldas da Rainha, uma peça de cerâmica do comércio tradicional pode ser levantada em cacifos espalhados pela cidade. As medidas são do programa Bairros Comerciais Digitais, que teve milhões de euros de financiamento, mas mais de metade das cidades não soube aproveitar o empurrão do PRR.
Azeitonas de várias qualidades, cajus, amêndoa, tudo a granel, assim como os queijos, fazem parte do negócio que Manuela Santos herdou da mãe e que agora entregou à filha Paula. Não há um dia que não tenha a banca montada, seja no mercado de Torres Novas, Ourém, Tomar ou Alcanena. Onde houver movimento de fregueses é um bom local para fazer negócio. “Aos domingos faço as feiras de velharias e se não for nas velharias tenho uma licença para vender na rua, em Tomar. Só parei agora na altura do verão porque vai tudo para as praias e não se vê movimento na cidade”, explica a vendedora de 79 anos.
Os pequenos comerciantes, que vivem da venda em feiras ou mercados, estão habituados a andar com o negócio às costas. De cidade em cidade, abancam onde existe movimento de fregueses. Miguel Duarte é produtor de queijo e todos os dias faz-se à estrada para vender aquilo que produz artesanalmente em casa. Percorre várias vilas e cidades do distrito de Santarém, incluindo Alcanena onde está uma vez por semana. “Antigamente tínhamos mais clientes, agora são menos, mas os que nos visitam vêm para comprar. Temos fregueses novos e velhos, mas atendemos sobretudo pessoas com mais idade”, explica o produtor, que sempre viveu da agricultura e do comércio local.
Exceto nos meses de verão, são as pessoas mais velhas, reformadas, que compram na feira de frescos do Mercado Municipal de Alcanena, que foi reabilitado no sentido de aumentar a oferta no centro da vila. Para alargar o horário de funcionamento e chegar aos consumidores em idade ativa, está a ser testada uma plataforma online que permite que os clientes comprem as frutas e os legumes do mercado através da internet. Depois de escolhidos os produtos, disponíveis no marketplace MV Alcanena, os clientes podem levantar a encomenda a qualquer hora do dia, em cacifos climatizados e preparados para acondicionar qualquer tipo de produto. O objetivo do projeto piloto é apoiar os pequenos vendedores através da digitalização do comércio local. “Vivemos num contexto em que as cidades têm que mudar, têm que se adaptar às novas exigências do mercado. O que queremos é prolongar a vida dos mercados municipais, que há tantos anos fazem parte da nossa cultura e dos nossos hábitos de consumo. Estes cacifos são uma extensão ao modelo de negócio atual dos mercados municipais, abrindo-os ao consumidor em idade ativa que está habituado a fazer compras online”, explica Bruno Correia, fundador da MicroVida, a start-up com sede em Alcanena, que ambiciona digitalizar e conectar mercados municipais pelo país.
Os produtores locais, com vidas inteiras dedicadas ao pequeno comércio, nunca imaginaram poder vender os seus produtos pela internet, mas sentem-se motivados a acompanhar a modernidade, como lhe chamam. Miguel Duarte não vai à internet, mas conta com o apoio do filho para entrar no mundo digital e vender os queijos que produz em Alcanede, em Santarém, através de um clique. Assim como Manuela Santos, que acredita que os negócios têm que se adaptar às novas tecnologias. “A plataforma vai-nos ajudar a divulgar os nossos produtos para outros clientes, até de outras zonas do país. Temos que evoluir, caso contrário ficamos para trás”, afirma a comerciante, que está interessada em juntar-se aos 60 negócios que já fazem parte da plataforma MV Alcanena.
A solução tecnológica, que está em fase piloto para o aperfeiçoamento de funcionalidades, não só permite a recolha dos artigos no cacifo instalado no mercado municipal, como possibilita o envio dos produtos locais para qualquer ponto do país. Os bolos do espinheiro, os pampilhos, as vassouras de Monsanto ou o gin feito à base de produtos locais estão à distância de uma encomenda on-line. O grupo de comerciantes aderentes, que inclui o Ramalho, uma empresa de produtos químicos, está a ajudar a desenvolver a plataforma e a adequá-la às necessidades dos lojistas e clientes. “A população é pequena e não podemos esperar o crescimento de um negócio baseado nas pessoas daqui dos arredores. Sabemos que o comércio de rua é difícil por isso precisamos de abranger outros territórios”, diz Sofia Salgueiro, que há três anos abriu a loja de roupa Amor Perfeito, uma das marcas que já está presente na plataforma MV Alcanena.
Depois da fase de testes, a MicroVida, que está a implementar o modelo de negócio, quer alargar a solução a outros bairros comerciais ou mercados municipais que estejam à procura de digitalização. Para além de apoiar o comércio local, a iniciativa pretende encurtar as cadeias de distribuição e contribuir para um modelo de consumo mais consciente. Mais tarde, a startup espera criar uma plataforma única que centralize a oferta dos mercados municipais de todo o país, de forma a promover e facilitar a comercialização de produtos nacionais. “Interessa-nos pensar que esta é uma componente de fixação das pessoas nos territórios. Ao impulsionarmos os negócios locais estamos a criar serviços de proximidade, a criar emprego e habitação e tudo isso faz parte dos mecanismos de fixação das pessoas”, refere Nuno Silva, vice-presidente do município de Alcanena.
A autarquia, que viu recusada a candidatura à medida Bairros Comerciais Digitais, está a testar a digitalização do comércio local com a MicroVida. Se o piloto correr como esperado, o município compromete-se a apoiar a implementação definitiva do projeto.
O Bairros Comerciais Digitais é um programa apoiado pelo Governo através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O Estado investiu mais de 223 milhões de euros na aceleração da transição digital das empresas, ao apoiar a criação de 95 bairros digitais, segundo dados da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP). Mas mais de dois meses depois do prazo para a execução do projeto, que foi alargado por falhas de implementação, dezenas de marketplaces não funcionam. Dos 95 projetos apoiados, mais de metade não apresentam evidências concretas de utilização por parte de comerciantes e clientes.
No próprio relatório da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR, de abril de 2026, foram identificadas “incertezas relevantes quanto ao impacto efetivo” do investimento. No documento é recomendada a “monitorização da utilização das soluções digitais instaladas incluindo a adesão real dos comerciantes às plataformas, evitando que o investimento se traduza apenas na instalação de infraestruturas ou equipamentos sem utilização efetiva”.
Do ponto de vista da CCP, entidade que representa o setor, a aposta na digitalização do comércio local é determinante para a “revitalização das economias locais” uma vez que permite ao comércio tradicional estabelecer uma ligação diferenciada face às grandes marcas e plataformas globais, contribuindo para comunidades mais participativas.
Caldas da Rainha é exemplo de sucesso
O município das Caldas da Rainha é um dos poucos casos de sucesso, em que o comércio local tem beneficiado das plataformas e ferramentas digitais disponibilizadas pelo programa Bairro Comercial. Quem percorre as ruas do centro histórico e passa pela Rua Almirante Cândido dos Reis, mais conhecida localmente pela rua das montras, percebe a dimensão do projeto. Existem mupis digitais com mapas e informações sobre os negócios, três pontos com cacifos onde os clientes podem recolher as suas encomendas a qualquer hora do dia e onde já são contabilizadas 280 utilizações por mês.
É o caso de Luís Santos, conhecido pelos clientes como Ramiro, o nome que herdou simbolicamente do pai e que faz parte da identidade da loja de fatos por medida. A Ramiro abriu em 1952 e é uma das sete lojas centenárias distinguidas com o selo Comércio com História. Na vitrine da loja pode ler-se: “mesmo que nada me compre entre e converse comigo. Se não ganhar um cliente, quem sabe ganho um amigo”. É assim que Luís Santos gosta de descrever o comércio local, como um amigo próximo que sabe aconselhar e ajudar quando é preciso. “No comércio tradicional conhecemos as pessoas, temos uma relação muito familiar. Há pessoas que compraram aqui o fato de casamento, depois compraram para os filhos, depois para os netos. Passam por aqui várias gerações. Para quem não nos conhece, agora é mais simples chegar até nós, através das plataformas do Bairro Comercial”, explica o lojista, que nasceu no ano em que a Ramiro abriu ao público.
O comércio local e a economia de proximidade representam mais de 50% do emprego no concelho das Caldas da Rainha e o município quer continuar a apostar numa cidade de tradição e comunidade, que contrarie o conceito de cidade dormitório. É através de novas ferramentas digitais e da criação de novas oportunidades de negócio que o concelho espera impulsionar e dar futuro aos negócios tradicionais. Os comerciantes aderentes ao Bairro Comercial têm acesso a um marketplace que entrega os produtos da terra em qualquer parte do Mundo, assim como possibilita a entrega das encomendas em cacifos disponíveis 24 horas por dia, 365 dias por ano. “O digital é uma ferramenta super importante que bem utilizada poupa imenso tempo e traz muito negócio. Por outro lado, é importante que os clientes percebam que ao investirem na economia local estão a investir na sua própria qualidade de vida. Se queremos viver numa cidade de comunidade temos que ser parte da comunidade, contribuindo para a sua continuidade”, afirma Sara Lopes, gestora do Bairro Digital das Caldas da Rainha.
A continuidade e manutenção dos negócios tradicionais é outra das preocupações da equipa que gere o projeto. Um quarteirão depois da praça da fruta, local onde se realiza há mais de 500 anos um mercado de produtos locais, está a sapataria de Maria João Luís. A proprietária, que abriu o negócio há quase 40 anos, não tem quem queira dar continuidade ao negócio, embora atenda clientes que percorrem quilómetros para a visitar. “Nem temos noção de quantas pessoas de fora visitam a cidade e vêm regularmente. São clientes habituais que vêm bastantes fins de semana durante o mês. Há muita gente de fora, de cidades em que existem centros comerciais, que preferem vir comprar às Caldas”, explica a lojista, que trabalha acompanhada por três animais de estimação, o Gonzaga, o BomTom e o Amigo.
Assim como a sapataria BomTom, existem outras lojas em risco, que poderão vir a encerrar por falta de interessados em dar continuidade aos negócios. O resultado, sabe-se pela experiência de outras cidades, são centros descaracterizados, que perdem anos de tradição para dar espaço a lojas e cadeias internacionais. “Os desafios para o comércio local são os mesmos para toda a Europa, independentemente do tamanho das cidades. Uma questão muito preocupante é a continuidade dos negócios e os saberes que se perdem pelo meio, quando encerra uma loja tradicional. Há muitos negócios que ainda têm saúde financeira, têm uma atividade bastante consistente e que vão atravessar nos próximos anos problemas de continuidade”, afirma Sara Lopes.
O Bairro Comercial das Caldas da Rainha tem mais de 250 comerciantes aderentes, que passaram por um processo de formação no sentido de serem capazes de utilizar e tirar o maior partido possível das plataformas digitais.