
Natureza
Projeto artístico reescreve relação entre comunidade e vida selvagem
Nelson Jerónimo Rodrigues, Texto
Palombar, Pedro Alves e Helena Raposeira, Fotografia
“Futuros Partilhados” é o nome de um projeto colaborativo que junta artistas, biólogos e populações do Nordeste Transmontano com o propósito de aproximar comunidades humanas e animais selvagens. Ao recriarem narrativas através da arte e da conservação da natureza, os participantes imaginam novas formas de coexistência enquanto desconstroem mitos sobre espécies e ambientalismo.
Há muito que a tradição oral do Nordeste Transmontano reflete a relação e o conflito histórico entre humanos e animais selvagens, num misto de medo, respeito e efabulação. Por ameaçar os rebanhos dos pastores, o lobo foi sempre a figura central desse antagonismo, mas outras espécies, como os abutres, os javalis ou as cobras, também preenchem um imaginário popular que cruza a realidade com vários mitos. Entre o desconhecimento e a necessidade de proteção e subsistência das comunidades rurais, foi sendo construída uma narrativa que perdura até hoje.
Nesta disputa de interesses com a conservação da natureza, as populações sentem-se frequentemente excluídas dos processos de decisão e também desconfiam, muitas vezes, dos movimentos ambientalistas. Foi o que aconteceu na região de Miranda do Douro, quando alguns grupos foram acusados de libertar animais selvagens no Parque Natural do Douro Internacional e responsabilizados pelo regresso dos ataques de lobos na região. Como resposta, a organização não governamental Palombar decidiu lançar um projeto que “desconstrói preconceitos sobre ambientalismo e reverte mitos e histórias sobre a fauna selvagem, capazes de atravessar gerações”. Chamou-lhe “Futuros Partilhados - Narrativas colaborativas para reimaginar uma convivência multiespécies”.
“Além de querermos inverter esta falta de informação e desconhecimento sobre as espécies selvagens, que contribui para a perpetuação de atitudes negativas e propaga mitos, trata-se de uma reação de desconexão a vários boatos, como a libertação secreta de lobos no território, que não correspondem, de todo, à realidade”, diz Sara Freire, uma das coordenadoras do projeto. Ao mesmo tempo, procura-se refletir sobre a relação entre humanos e não humanos, promovendo uma coexistência não hierárquica entre ambos, ou seja, em que uns não estejam subordinados aos outros.
Para isso, foi criada uma rede colaborativa de artistas, biólogos e antropólogos que, em conjunto com a comunidade, faz da arte a melhor forma de sensibilizar populações, criar espaços de diálogo e espalhar a mensagem. Juntos, também procuram construir pontes entre “zonas de tensão”, através de dinâmicas que envolvem grupos aparentemente antagónicos, como “comunidades e administrações, caçadores e ecologistas, predadores e presas”, explica a educadora ambiental da Palombar.
O objetivo é “imaginar um futuro partilhado e uma possibilidade de coabitação entre humanos e espécies selvagens, não utópico ou ausente de conflito, mas numa prática real do dia a dia”, acrescenta Gonçalo Mota, um dos coordenadores artísticos do projeto, a par de Nuno Preto. Como faz questão de lembrar, na relação entre homens e animais, “há muito mais a uni-los do que a separá-los”, por isso, talvez a arte possa desarmar preconceitos que historicamente afastaram as populações rurais do ambientalismo.
Fundir arte, pessoas e natureza
Lançado em 2025, o “Futuros Partilhados” assenta numa abordagem intergeracional, ao trabalhar, sobretudo, com jovens e idosos do concelho de Miranda do Douro. Uns e outros participam na recriação das narrativas através de oficinas criativas multidisciplinares, materializadas, por exemplo, em textos, áudios, vídeos, teatro, expressão corporal ou cinema ambiental. No primeiro ano, o projeto começou com uma fase piloto que reuniu histórias orais, memórias e crenças junto da comunidade sénior, recolhidas em lares e aldeias do concelho. Simultaneamente, os jovens do agrupamento de escolas participaram em diversas atividades artísticas com uma forte componente de sensibilização ambiental, como introdução à biodiversidade local.
Deste trabalho com os alunos nasceu a revista coletiva Zona de Contacto, que põe em diálogo ilustrações dos jovens e textos de artistas, escritores, biólogos e historiadores. Outro exemplo é um conjunto de oito minidocumentários resultantes das oficinas criativas (vídeo, som, escrita e observação da vida selvagem) e de uma residência artística a que chamaram “Campo Comum” (ver vídeo abaixo). Em 2026, ano de implementação do projeto, as oficinas continuam nas escolas, mas agora mais focadas nas técnicas de trabalho de campo com os biólogos e na criação de manifestos. “Por exemplo, a partir da recolha que fizeram com a comunidade sénior, os jovens criaram uma performance artística, em jeito de manifesto, intitulada 'Adonde hai lhobos hai bida' que convergiu na figura do lobo, e na perspetiva deste animal”, recorda Sara Freire, que este ano venceu o Prémio Conceição Martins de Educação Ambiental, pela coordenação de uma das vertentes do projeto.
Para 2027 está previsto um espetáculo-palestra final, com uma forte componente multimédia, que deverá passar por várias aldeias do planalto transmontano, chegando a um público ainda mais alargado. Esse será o último ano do projeto, desenvolvido pela Palombar em parceria com a Câmara Municipal de Miranda do Douro, o Agrupamento de Escolas deste município e a Santa Casa da Misericórdia local. Ao longo dos três anos é financiado pelo programa Partis & Art for Change, da Fundação Calouste Gulbenkian, BPI e Fundação “la Caixa”.
Alguns ataques recentes de lobos – como o que matou dezenas de ovelhas na aldeia de Duas Igrejas – vieram extremar posições junto da comunidade pastoril, mas, ainda assim, os responsáveis pelo “Futuros Partilhados” acreditam que o projeto já teve o mérito de fomentar o diálogo e a discussão, empoderando comunidades e capacitando jovens. “Através da arte conseguimos construir pontes colaborativas que chegaram não só aos jovens e aos mais idosos com quem estamos a trabalhar, mas também aos seus familiares, alguns com opiniões mais exacerbadas e mesmo algum ódio, como pastores ou caçadores”, afirma Gonçalo Mota, defendendo uma coexistência assente em relações de benefícios mútuos. “Quando nos dizem que o Planalto é um paraíso, nós lembramos que só o é porque ainda tem espécies como o lobo, o abutre ou as cobras, entre outras. Se não houvesse nada disto, seria só mais um sítio assético e urbanizado, como tantos outros”, concretiza o antropólogo e realizador.
Proteger, revitalizar e fazer a festa
Criada no ano de 2000, a Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, está sedeada em Uva, uma pequena aldeia com cerca de 50 habitantes no concelho transmontano de Vimioso, distrito de Bragança. A organização não governamental de ambiente tem como principais missões a conservação da biodiversidade, dos ecossistemas naturais e do património rural material e imaterial. Além do “Futuros Partilhados”, desenvolve muitos outros projetos dedicados à proteção e educação ambiental e ao desenvolvimento das comunidades locais, com especial incidência no norte do país.
Entre eles está o “LIFE SOS Pygargus”, um projeto transfronteiriço que une esforços dos dois lados da fronteira com a missão de salvar o tartaranhão-caçador, também conhecido como águia-caçadeira. Esta ave está particularmente ameaçada porque nidifica no solo em áreas abertas, o que acaba por deixar os ninhos especialmente vulneráveis. “A ceifa dos cereais acontece cada vez mais cedo, numa altura em que as crias ainda não saíram dos ninhos, provocando uma grande taxa de mortalidade. Por isso, procuramos uma adaptação das práticas agrícolas a este ciclo e a produção de cereais mais compatíveis com a espécie”, explica Sara Freire. A meta do projeto, coordenado pela Palombar em parceria com 17 entidades (como universidades, movimentos ambientalistas e grupos de produtores) passa por reduzir em 75% a mortalidade e aumentar a população reprodutora em 50%.
Na região da Serra da Estrela, mais concretamente em Linhares da Beira, concelho de Celorico da Beira, a Palombar também está a dinamizar o projeto “Linho a Fio”, que visa revitalizar o cultivo do linho e a produção do linho artesanal “como forma de regeneração ecológica, económica e social”. Também neste caso, o envolvimento das populações é essencial, por exemplo, através de oficinas práticas, de um eco-mercado e da Festa do Linho.
Já em Uva, ajuda a dinamizar todos os anos a “Festa dos Pombais”, cujo nome está associado aos 45 pombais existentes na aldeia transmontana, quase todos recuperados em campos de trabalho voluntário organizados pela Palombar. Percursos interpretativos e visitas guiadas, espetáculos de música e teatro, um mercado tradicional e contadores de histórias são algumas das atividades deste evento que, mais uma vez, procura promover o território, associando a força da comunidade à conservação da natureza.