
Cultura
Filmes do CineEco mostram realidade antecipada há 20 anos por Al Gore
O CineEco relança o debate sobre migrações climáticas, com duas produções internacionais, "Black Water", de Natxo Leuza, e "Rua do Pescador nº6", de Bárbara Paz. Os documentários, rodados no Bangladesh e no Rio Grande do Sul, no Brasil, alertam para os impactos dos fenómenos meteorológicos extremos, através da história de duas comunidades altamente impactadas pela erosão costeira e pela subida do nível do mar. No filme “Uma Verdade Inconveniente”, de 2006, Al Gore já alertava para os problemas enfrentados pelos dois países, que começam a sofrer os efeitos das alterações climáticas.
São linguagens documentais distintas que colocam o espectador sobre o mesmo cenário apocalíptico: cheias devastadoras, capazes de submergir territórios e interromper vidas. Na primeira, um documentário todo ele pincelado de ficção, onde a realidade da erosão costeira e de tempestades cada vez mais intensas antecipam um futuro que se começa a desenhar. Cerca do 20% do território do Bangladesh desaparecerá nas próximas duas décadas, forçando a migração de 20 a 30 milhões de pessoas que vivem em localidades futuramente submersas. O realizador espanhol Natxo Leuza conta a história de uma família que é obrigada a abandonar o local onde vive, devido à subida do nível do mar, através de uma narrativa imaginada e perturbadora do ponto de vista cinematográfico.
Para o programador e crítico de cinema Tiago Alves, a realidade retratada em "Black Water" gera uma "ansiedade extrema" em torno de algo que ainda não aconteceu. “Vai ao encontro das populações e mostra-nos o lugar que está a desaparecer no Bangladesh devido à erosão costeira. O filme acompanha a vida destas pessoas num fluxo futurista para Daka. O território já está a ser afetado, já está a encolher e as pessoas têm que se deslocar para a capital e para outros lugares onde a circunstância de estarem localizados a maior altitude permite que a vida continue. É muito interessante entrar neste filme porque tem mesmo essa dimensão perturbadora. A vivência naquele espaço geográfico, naquele país, pode tornar-se um pesadelo”, refere o programador do CineEco.
Na segunda narrativa, “Rua do Pescador nº6”, as imagens, sons e relatos reais retratam as enchentes devastadoras que atingiram o Rio Grande do Sul, no Brasil, em 2024. Mais de 600 mil pessoas ficaram desalojadas, milhares perderam as suas casas e bairros inteiros ficaram submersos. Depois de documentar o passado através da memória testemunhal, o filme procura perceber como é que as pessoas continuam a tentar reerguer-se naquele lugar. “Os dois filmes ligam-se pela temática, mas também pela proximidade ao nosso país. No caso do filme do Brasil pela língua e pela ligação histórica a Portugal. No caso do Bangladesh é, de repente, um país para o qual estamos a olhar através do discurso político pelas piores razões. Aqueles são os refugiados do clima do dia de hoje e muitos deles estão a vir para Portugal”, refere Tiago Alves.
Os filmes, a concurso na edição deste ano do festival de cinema ambiental CineEco, relançam a discussão sobre a migração climática, problema presente em praticamente todo o mundo. Embora possa ser mais frequente em regiões insulares e territórios no Norte de África, África subsaariana, Ásia Oriental ou na América Latina, é também em Portugal que os riscos ambientais relacionados com incêndios rurais, erosão costeira e subida do nível do mar, podem originar migrações internas devido à destruição de localidades que podem vir a desaparecer. “É interessante relembrarmos o primeiro filme popular, de grande audiência, sobre a problemática do aquecimento global. Al Gore, há 20 anos, identificou, com base nos dados científicos que reuniu, diversos problemas que iriam acontecer em lugares muito específicos do planeta. No menu de problemas estavam os incêndios furiosos que viriam a afetar Portugal, mas também o problema da erosão dos territórios e da subida das águas do mar que faria desaparecer cidades como Miami, Nova Iorque, Xangai e Bangladesh. É isso que estamos agora a perceber olhando para um filme como “Black Water”, explica o programador Tiago Alves.
Na Seleção Internacional de Longas-Metragens, dez documentários são estreia absoluta em Portugal e retratam temas ambientais que vão do apartheid climático, aos novos desafios do ativismo ambiental, migrações ambientais, espécies, habitats e exploração de recursos em cinco continentes.
Resposta a eventos extremos
Pouco depois das primeiras imagens de “Lições de Fogo”, John Webster lança a primeira reflexão e mensagem aos espectadores: os desastres climáticos estão a tornar-se mais frequentes e graves e o futuro é cada vez mais incerto. É através de um relato próximo e vibrante, em que a câmara assume a dianteira do teatro de operações, que o realizador finlandês espera documentar a agressividade das chamas num cenário de incêndio rural. Ao mesmo tempo, relata a vulnerabilidade sentida pelos operacionais que o combatem no terreno. “Foi sem dúvida o filme mais exigente e perigoso fisicamente que alguma vez fiz. Acompanhamos os bombeiros em todas as vertentes do seu trabalho e isso implicou usar o mesmo equipamento de proteção e trabalhar com temperaturas superiores a 45 graus, muitas vezes rodeados de fumo e chamas. Foi exaustivo e assustador. Mas este acesso extraordinário também nos permitiu captar a realidade do combate aos incêndios de uma forma que, de outra maneira, teria sido impossível”, relata John Webster, que começou a preparar a rodagem do projeto vários meses antes de viajar para Portugal, em 2023.
A partir de uma pequena notícia de outubro de 2022, que relatava a experiência de bombeiros finlandeses enviados para a Grécia no âmbito de uma operação europeia de socorro, o realizador reconheceu de imediato os ingredientes de um documentários cativante, “pessoas comuns a fazer coisas extraordinárias, cooperação europeia e alterações climáticas”, temas que lhe interessavam há muito tempo. Foi por isso que decidiu embarcar na expedição de uma equipa finlandesa de combate a incêndios, que viajou para Portugal para contactar com a experiência de um país onde a trágica história dos incêndios rurais contribuiu para formar algumas das equipas de combate a incêndios mais qualificadas e experientes do mundo. “Os incêndios rurais estão a tornar-se mais extremos, propagam-se mais rapidamente e ultrapassam cada vez mais a capacidade de resposta dos serviços de emergência locais. Até países como a Finlândia, tradicionalmente protegidos destes perigos, têm de se preparar para um futuro diferente. O filme não é apenas um alerta sobre aquilo que nos espera. É também uma reflexão sobre a forma como estamos a aprender a responder, em conjunto, a estas novas realidades”, explica John Webster.
O filme faz parte da iniciativa cinema em debate, do CineEco, que exibe obras que complementam a discussão em torno de temáticas ambientais prementes. Partindo da mesma temática dos incêndios, mas alargando a narrativa à problemática do monocultura, da exploração de recursos com base em interesses económicos e da exploração de ecossistemas, a realizadora britânica Sofija Korf relata a experiência da bióloga brasileira Luciana Leite que realizou o sonho de visitar o Pantanal, a maior área húmida tropical do planeta e um santuário de biodiversidade. “O Pantanal pode ser o ponto de partida para uma reflexão mais abrangente sobre a nossa relação com o mundo natural. Acredito que precisamos de repensar essa relação e começar a trabalhar com a natureza, em vez de contra ela. Isso implica reconhecer o valor que os ecossistemas saudáveis nos proporcionam e desenvolver atividades que respeitem esses sistemas, em vez de os substituir”, afirma a realizadora do “Pantanal”.
O documentário é o resultado de várias visitas às comunidades que vivem no Pantanal, no Brasil, e que se sentem ameaçadas pelos perigos ambientais a que aquela zona florestal está sujeita.
O filme faz parte das 106 obras exibidas no Festival de Cinema Ambiental CineEco, que se realiza em Seia há mais de 30 anos. A programação termina este sábado, dia 17 de outubro, com o espetáculo musical “Entre Terra e Corpo”, da Orquestra Ligeira de Gouveia, e a cerimónia de entrega de prémios com o anúncio dos filmes vencedores das diferentes competições.